"É a partir do surgimento da democratização da comunicação pela rede cibernética, que a conjuntura na música muda completamente.O futuro da música está em nossas mãos. Este é o manifesto do movimento Música Para Baixar."
A internet e as vendas

Enquanto isso, no Brasil...
Num show recente do Teatro Mágico, o Fernando Anitelli, líder do grupo, dono da frase que dá titulo a este artigo, afirmou categoricamente: jamais apareceremos no Faustão e nunca tocaremos com regularidade nas rádios, porque não daremos em hipótese alguma um centavo sequer para jabás. No entanto, seus shows são presenciados por milhares de pessoas, seus CDs são vendidos a preços baixos pelo site ou no próprio show e, mesmo assim, todas as músicas podem ser baixadas no site deles. E o grupo sobrevive muito bem, obrigado. Como? Veja uma matéria (um tanto exagerada, é verdade) do Jornal Hoje sobre eles:
Meu blogue de poemas ("As Outras Palavras") foi pensado também dessa forma. Mesmo com a grande possibilidade de ele virar livro ainda este ano, acredito firmemente que a disponibilização dos poemas na rede será um incentivo à compra do livro, e não o contrário.
Além disso, penso ser inalienável e fundamental o direito à cultura. Neste último mês, houve escolas públicas que desistiram de realizar suas festas juninas, importantes eventos de divulgação do nosso folclore, para não ter que pagar ao ECAD (Escritório de Arrecadação dos Direitos Autorais) um valor sobre as músicas executadas. Acompanhe um debate sobre essa questão aqui.
As grandes gravadoras vão sofrer é claro e, por isso, já começam a fazer suas pressões sobre o Congresso. O nefasto projeto de lei do senador Eduardo Azeredo prevê, no artigo 285-B, criminalização da ação de “obter ou transferir, sem autorização ou em desconformidade com autorização do legítimo titular da rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, protegidos por expressa restrição de acesso, dado ou informação neles disponível.”. A pena para esse crime seria de reclusão de um a três anos, além de multa. Trocando em miúdos, se aprovada, a lei não permitirá a livre circulação da informação pela internet.
As repercussões políticas
A discussão acima proposta tem relação direta com o exercício político que se vê no Brasil. O nosso brônzeo vate-estadista do bigodão engalanado, o Dr. José Sarney, tem afirmado, com certa insistência, que há uma "crise da democracia representativa no Brasil". Numa entrevista patética aos jornalistas Fernando Rodrigues e Valdo Cruz da Folha de São Paulo, no dia 16 de junho, ele afirma:
FOLHA - Como o sr. avalia a onda de escândalos envolvendo o Senado e o sr.?
JOSÉ SARNEY - A vida sempre me reservou desafios. A crise da democracia representativa está atingindo todos os Parlamentos no mundo inteiro.
FOLHA - Por culpa de quem?
SARNEY - A notícia em tempo real transformou o Parlamento, ele fica quase envelhecido. Em face disso há uma divergência de saber quem realmente representa o povo. É a mídia eletrônica, são as ONGs, é a sociedade civil ou os representantes eleitos? Esse é o grande problema que estamos vivendo.
A entrevista completa está aqui, já que a Folha só a disponibilizou de forma impressa ou para os assinantes do próprio jornal ou do UOL na internet.
À revista ISTOÉ afirma o nosso quase octogenário "nababo peemedebista de alma tucana convertido ao petismo", com toda a pompa de quem enverga um fardão farfalhante de imortal da ABL e com a ferocidade de quem carrega a peixeira simbólica dos grande coronéis deste Brasilzão para garantir que tudo continue exatamente como sempre foi:
"O Parlamento perdeu sua sacralidade. A instituição está ameaçada por mecanismos de democracia direta, até mesmo pela internet. Não se sabe o que fazer. O Congresso ficou mais vulnerável. É visto como uma repartição pública e os parlamentares como funcionários públicos.".
E ainda:
"Diante do seu esvaziamento, o Parlamento é alvo de desprestígio e de desinteresse. O que se reflete também na qualidade dos recursos humanos e na qualidade dos próprios parlamentares. Esta é a origem das distorções atuais.".
É brincadeira? "A instituição está ameaçada por mecanismos de democracia direta"? Não preciso analisar esse trecho e o que mais foi dito para que o leitor perceba o absurdo dessas considerações que, dentre outros objetivos, pretendem inverter as posições de acusador e de réu. Considerações que, na verdade, só revelam a senilidade de um homem que se enxerga como um monarca medieval.
Acompanhe, inclusive, este vídeo em que Sarney, mergulhado num lamaçal de denúncias e de críticas, utiliza argumentos falaciosos (principalmente os do tipo ad hominem) para reiterar, com a veemência de um artista, essas suas convicções como estratégia de defesa:
A democracia precisa sim renascer, senador Sarney, e a proposta de difusão livre da música é um indício claro disso.
A democracia precisa sim renascer, senador Sarney, mas, para isso, é preciso enterrar sua vida política e de seus pares.
2 - Meu livro já foi publicado: http://www.editoramultifoco.com.br/catalogo2.asp?lv=183
3 comentários:
um projeto muito interessante, com o objetivo de reunir arquivos de música não involvida em DRM é o Musopen.
É por uma post como esse que eu fico chateado quando tem um semana que você nao posta aqui.
MUITO BOM!
A proposta de livre divulgação é simplesmente brilhante. Nosso país realmente necessita disso. Não só em relação à música, mas à cultura em geral. Infelizmente, cultura no Brasil custa caro, muito caro. Imagina só quanto uma pessoa sem recursos não economizaria ao fazer download de livros, músicas, filmes, etc.! É claro que isso tudo já é possível hoje, mas com restrições. Caso fosse legal, o próprio governo poderia se encarregar de difundir esse material com menos timidez do que o faz atualmente.
Como discutimos, esse é realmente o meio para nos livrarmos de usurpadores como nosso querido coronel. O que me preocupa é saber se isso não gera um paradoxo: precisamos de informação pro povo para nos livrarmos desses tipinhos, mas ao mesmo tempo boa parte da informação é controlada por eles. E aqui nosso senso crítico não nos ajuda se não tivermos o joio pra separar do trigo.
Espero sinceramente que o MPB dê certo e que a iniciativa se expanda para universos. Se isso for possível, será um indicativo de que ainda podemos ter esperança.
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