31 de dez de 2009

Conto de Ano Novo

Tinha mais nos olhos que no verbo aquela menina. E ainda não sabia se o real e o ideal eram paralelos ou contíguos. Nem sabia o que era con-tí-guo.

Mas imaginava. Imaginava tudo.

Imaginava, por exemplo, que era possível voar, se quisesse bem forte. E por isso apertava os olhos e ficava sem respirar por mais de um minuto – só desejando, desejando, desejando... Ficava tonta... Mas se achava mais próxima das nuvens que do chão.

Acreditava até que era possível controlar o tempo. E se orgulhava de ter mudado muitas histórias tristes, antes de elas se tornarem tristes. E se orgulhava de conseguir esquecer todas, para poder parecer surpresa quando elas acontecessem. Porque esse dom era seu segredo. Só seu.

Às vezes se cansava de amar tudo com tanta força. Tinha medo de pensar mal das pessoas e de desejar mal a elas. Não gostava do réveillon porque podia estar desatenta no exato instante da virada, e condenar um mundo todo.

Ficava encantada com Deus, aquele ser maravilhoso.
(por Filipe Couto)