27 de mai de 2010

A um Anônimo

Os que me acompanham sabem que este espaço anda abandonado há um certo tempo. Tenho confessado a amigos mais próximos que eu mesmo fico incomodado com isso. Mas desde a preparação do meu livro de poemas, o Breves Cantares de Nós Dois, até agora, quando suas vendas se consolidaram, ocupei-me bastante dele, e deixei muita coisa de lado.

Sempre achei babaquice esse negócio de artista ter que repousar entre trabalhos. Mas é isso mesmo que acontece. Não por vontade, mas por obrigação. O camarada publica um livro e quer ver sua obra bem cuidada. Se vender um exemplar, ótimo. Do contrário, fica a satisfação de ter dito o que queria dizer.

Os que me acompanham sabem que não vivo de ser escritor, mas de falar sobre eles. Sabem também que sou a favor do livre acesso à cultura, razão pela qual ofereço, no meu outro blogue, todos os poemas que publiquei no livro. É claro que, no blogue, a narrativa não está na ordem certa, é claro que há surpresas estruturais na versão publicada, é claro que livro é sempre livro – coisa boa só de pegar e ter –, mas disponibilizei tudo na internet. Arte, mesmo a ruim, tem que ser vista para se saber ruim.

Por causa disso, ganho bastante: mais e mais pessoas me leem, quase 50 por dia, mesmo quando fico semanas sem publicar. Ganho também muitos comentários positivos, conheço gente da melhor qualidade, gente que torce pelo meu desenvolvimento, gente que me apoia, apontando erros e acertos. Reflito e sigo em frente.

Mas há também os covardes. Os que se escondem no anonimato para destilar seu mau caráter.



Foi um desses que, depois de passar quase 3 horas no meu blogue (sim, tenho seu IP), mandou-me um comentário ontem, às duas da manhã:

Incrível pensar que há tantos poetas novos e bons (Angelina Freire, Carlito Azevedo, Fabrício Corsaletti, etc) que penam pra publicar seus poemas enquanto você, um poeta breguinha de quinta, está cheio de comentários em poemas clichezentos. Ê Brasilzão! O alívio é saber que isso é passageiro. Filipe Couto é o Augusto Frederico Schmidt do século XXI.

Meu covarde anônimo, ainda assim dou-lhe respostas:

1) Se sou um “poeta breguinha”? Talvez o seja. Mas foi o grande Pessoa, sob heterônimo de Álvaro de Campos, quem nos disse:

Todas as cartas de amor são/ Ridículas./ Não seriam cartas de amor se não fossem/ Ridículas. / Também escrevi em meu tempo cartas de amor,/ Como as outras,/ Ridículas. / As cartas de amor, se há amor,/ Têm de ser/ Ridículas. / Mas, afinal,/ Só as criaturas que nunca escreveram/ Cartas de amor/ É que são/ Ridículas.

Meu livro, caro anônimo, é ridículo porque é uma grande carta de amor. Ou de amores, se você ler direito. Não tomo isso como defeito. Pra mim, é elogio.

2) Se estou cheio de comentários em poemas “clichezentos”? É possível. Há quem discorde de você. Não sou homem de repassar elogios que me fazem, mas a ocasião merece:


Continuo a ler os poemas lírico-amorosos de "Breves cantares de nós dois" e a me emocionar com a limpidez da linguagem, a capacidade de síntese, a força da emoção, a unidade temática, a exploração do sentimento amoroso sob diversos aspectos e situações (inclusive dando a "Ela" voz e vez), a comunicação direta, sem enrolação ou firulas.

Há poemas ótimos (enumerá-los aqui seria difícil), de grande força comunicativa, carga lírico-amorosa sem transbordamento, linguagem coloquial, mas de intensa musicalidade, que, aliás, flui com uma naturalidade rara hoje em dia; você pratica muitíssimo bem os versos livres, com grande noção rítmica e musical (as rimas chegam naturalmente, fortalecendo o plano semântico das palavras).

Enfim, caro Filipe, meus parabéns.
(Adriano Espínola)


E é por isso que minha primeira referência a Breves cantares de nós dois reflete “sobre a coragem de falar de amor”. E ressaltar a coragem não é aqui um eufemismo que disfarçaria algo como “que coragem, Filipe, falar de amor tão explicitamente no seu primeiro livro...” em certo tom de censura.

Ao contrário, coloco em relevo a coragem aplaudindo de pé, porque também chega o momento em que é preciso “ser de verdade” e a “verdade” aqui é que existe um poeta que pode falar de amor porque tem competência, vivência e criatividade para isso.
(Christina Ramalho)

Poderia deixar aqui outros textos sobre meus poemas, mas eles, poetas da melhor qualidade, já sintetizam bem as opiniões contrárias às suas.

3) Não conheço pessoalmente os poetas que você menciona, mas já li alguma coisa dos trabalhos deles. São pessoas bastante talentosas, com perspectivas diversas da literatura. Sou mais um. Não sou melhor porque vendo mais ou porque publico com mais ou menos facilidade. O contrário, também, se aplica.

Mas vejam os senhores como é a vida: querendo me atacar, ele acabou me oferecendo um dos maiores elogios que eu poderia receber.

Diz o anônimo, em tentativa (frustrada) de depreciar-me: “Filipe Couto é o Augusto Frederico Schmidt do século XXI”. 

Meus queridos, leiam um poema do Schmidt, publicado em 1930.


Vazio

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.

Quem me dera sê-lo, anônimo... Quem me dera...

Um abraço!

7 comentários:

Carolina disse...

Tô besta! O.O

Como pode? Pelo menos se fosse uma crítica construtiva...
=/

Karina Yasmin disse...

Tem mais uma coisa que o Anônimo disse:

"O alívio é saber que isso é passageiro."

Já o meu alívio é poder guardar todas as riquezas que estão nos seus poemas.
E além de guardá-las, aplicar nos meus poemas... ou cartas de amor [ridículas], que seja! rsrs

Mesmo sem ser poeta, ao ler os seus poemas eu acho que sou quando começo a escrever os meus!
...Gerar a vontade de fazer poesia em alguém é mais uma característica que só um bom poeta pode ter!

Valeu Filipe!
Abraço!

Thiago disse...

Que issoooooooo.. Que abuso. Entrar aqui para falar besteira? Entrar aqui para arruinar uma mente pensante? isso não é legal, caro anônimo. Vá arrumar o que fazer. Ou como dizem os populares. "va faxinar uma casa, maldito"

Amélia Losada disse...

Olha o absurdo!

Uma pessoa fica 3 horas com o blog aberto, lê tudo que se pode ler, e ainda faz um comentário bobo desse? Fiquei esperando uma crítica inteligente, uma baita reclamação...

3 horas?

Mas que invejoso, hein? Só isso explica. Ou então, é um psicopata! Cuidado! :B

Alcides Affonso disse...

Pois esse anônimo safado não deve saber uma coisa: EU, um sujeito que conhece mais de papel e tinta (alguém vai negar que isso seja a essência da Literatura?!) que qualquer um dos escritores citados (incluo aí Fernando Pessoa, Sheakespeare... Só não sei esse alemão, porque os alemães são os mestres da produção de tintas e celulose, mas ainda sou mais eu!), acho seus poemas sensacionais. Pronto, aí está o elogio definitivo que talvez faltasse à (vê se essa porra tem crase porque disso eu não entendo) sua obra! Abrácidos

Rafael C. disse...

Cada vez que leio seus textos aqui, sinto-me aliviado por você não ter continuado na intenção de ser promotor público. Eu, como defensor, tenho certeza de que não conseguiria vencer nenhuma contenda contra você. Vai ser preciso e elegante assim no inferno, meu amigo!
Parabéns! És um belo poeta, um grande ser humano, e um argumentador melhor ainda!
O mundo só ganha com você!

katyara disse...

Eu acho esses anônimos divertidos pra caralho! E me divirto ainda mais com os não-anônimos.

Enfim. O mundo me diverte. Que que eu posso fazer? Sou otimista.

E o cara passou três horas lendo seu blogue. A conclusão é óbvia: ele te ama, Coutinho!