20 de jul de 2010

A falácia do tal ranking do ENEM


Se é verdade que o mundo dispensa mais uma opinião acerca da função do ENEM e de seu formato, também é verdade que os astutos membros do INEP sempre vêm com mais uma de suas surpresinhas pra animar o debate. A divulgação feita na segunda (19/07) de um suposto “Ranking Nacional” das escolas é mais uma das cretinices a que estamos todos submetidos. Eis algumas conclusões interessantes:

1) Qualquer um imagina que o número de alunos matriculados em um colégio seja um pouco diferente do número de participantes de um exame. Claro que sempre haverá algum faltoso ou alguém que apenas não queira fazer a tal prova. De fato, se observarmos esses dados, que foram divulgados pelos INEP, veremos que, na maioria das vezes, isso se aplica.

O que desperta a atenção do analista mais atento, no entanto, é que há colégios cujo número de participantes no tal exame é MAIOR que o de matriculados. Há um colégio nas primeiras posições com 37 alunos matriculados, mas com 85 participantes!

Sabem o que isso significa? Que o INEP não tem nenhum controle sobre quem se inscreve. Se o candidato errar o código do seu colégio ou não preenchê-lo, por exemplo, o ranking sai mesmo assim. 



Wanda Engel, presidente do Instituto Unibanco, comenta outro aspecto que deve ser destacado: “(Como o exame não é obrigatório) as escolas podem incentivar que os melhores alunos façam as provas e desestimular os piores. Com isso, ela sai bem na foto. Precisaríamos de um teste universal e obrigatório. Enquanto não tivermos isso, os resultados são aproximações, não a realidade exata”. E não é?

Para divulgar uma tabela dessas para a  imprensa e para o público, o mínimo que se espera é uma checagem dos dados oferecidos pelos alunos na inscrição com os que são publicados no Diário Oficial pelo colégio, em forma de lei. Vocês acham que isso foi feito? Não, né?



2) Nem todas as universidades utilizaram o ENEM da mesma forma. No Rio de Janeiro, a UERJ não participou do exame, a UFRJ usou-o como primeira fase, e a UFF aproveitou-o como bonificação para a segunda fase. As duas últimas, todavia, desconsideraram a redação nos seus processos seletivos.

Claro que muitos alunos, sabendo disso, deixaram de lado a redação, preocupando-se simplesmente em não zerá-la, para se dedicar, com mais tempo, às demais (intermináveis) questões da prova.


O problema é que o INEP usa, para fazer o tal ranking, uma média no mínimo curiosa: eles dividem por dois a média das quatro provas objetivas somada à média da prova de redação. Traduzindo em miúdos pra quem teve preguiça de entender a conta: as 180 questões de múltipla escolha valem metade da nota; a outra metade fica por conta da redação. É mole?

Se contássemos apenas a média das notas obtidas na prova de múltipla escolha, o colégio que ficou em 2º lugar no Rio de Janeiro passaria para o 31º lugar! Dá pra confiar do mesmo jeito na qualidade do ensino do colégio?  Talvez sim, mas não por causa do ranking divulgado com pompa e circunstância pelo INEP.



3) O ranking ignora a presença dos cursos de preparação para o vestibular. Muitos dos colégios particulares que estão nas primeiras posições da tabela têm seus alunos matriculados em cursos que oferecem reforço e preparação específica para essas provas. Por isso, eles ganham posições sem, de fato, produzir um trabalho consistente.


Há que se perguntar a quem interessa algo produzido sem critérios rígidos. O projeto, tal como está, vai na contramão de tudo aquilo a que se propõe. Isso porque o ranking, além de malfeito, cada vez mais reforça o caráter elitista da educação brasileira, elegendo alguns colégios como bons e outros como ruins, aumentando, assim, a concentração do ensino nas mãos de determinados grupos.

Nem tudo é acerto no governo que eu sempre defendo aqui, mas que sei criticar também.

Um comentário:

Adriana disse...

E mesmo assim, com tudo isso, o pH ficou entre os 20 melhores...