25 de jul de 2010

Mais uma vergonha na F1

Oito anos depois do vexame do Rubinho, mais um brasileiro afina na Ferrari. Massa deixa Alonso assumir a liderança no GP da Alemanha - 2010, a pedido da equipe...


E vocês aí achando que pesquisa eleitoral é que é manipulada... Francamente, hein?


P.S.: Pra quem não lembra, eis o vídeo do vexame do Rubinho, narrado pelo Cléber "hoje não, hoje sim" Machado:

22 de jul de 2010

Carta aberta de João Ubaldo Ribeiro a Fernando Henrique Cardoso

Colhido em Alma Carioca:


25 de outubro de 1998

Senhor Presidente,

Antes de mais nada, quero tornar a parabenizá-lo pela sua vitória estrondosa nas urnas. Eu não gostei do resultado, como, aliás, não gosto do senhor, embora afirme isto com respeito. Explicito este meu respeito em dois motivos, por ordem de importância. O primeiro deles é que, como qualquer semelhante nosso, inclusive os milhões de miseráveis que o senhor volta a presidir, o senhor merece intrinsecamente o meu respeito. O segundo motivo é que o senhor incorpora uma instituição basilar de nosso sistema político, que é a Presidência da República, e eu devo respeito a essa instituição e jamais a insultaria, fosse o senhor ou qualquer outro seu ocupante legítimo. Talvez o senhor nem leia o que agora escrevo e, certamente, estará se lixando para um besta de um assim chamado intelectual, mero autor de uns pares de livros e de uns milhares de crônicas que jamais lhe causarão mossa. Mas eu quero dar meu recadinho.

Respeito também o senhor porque sei que meu respeito, ainda que talvez seja relutante privadamente, me é retribuído e não o faria abdicar de alguns compromissos com que, justiça seja feita, o senhor há mantido em sua vida pública – o mais importante dos quais é com a liberdade de expressão e opinião. O senhor, contudo, em quem antes votei, me traiu, assim como traiu muitos outros como eu. Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico. Mas, como dizia antigo personagem de Jô Soares, eu acreditei.

O senhor entrou para a História não só como nosso presidente, como o primeiro a ser reeleito. Parabéns, outra vez, mas o senhor nos traiu. O senhor era admirado por gente como eu, em função de uma postura ética e política que o levou ao exílio e ao sofrimento em nome de causas em que acreditávamos, ou pelo menos nós pensávamos que o senhor acreditava, da mesma forma que hoje acha mais conveniente professar crença em Deus do que negá-la, como antes. Em determinados momentos de seu governo, o senhor chegou a fazer críticas, às vezes acirradas, a seu próprio governo, como se não fosse o senhor seu mandatário principal. O senhor, que já passou pelo ridículo de sentar-se na cadeira do prefeito de São Paulo, na convicção de que já estava eleito, hoje pensa que é um político competente e, possivelmente, tem Maquiavel na cabeceira da cama. O senhor não é uma coisa nem outra, o buraco é bem mais embaixo. Político competente é Antônio Carlos Magalhães, que manda no Brasil e, como já disse aqui, se ele fosse candidato, votaria nele e lhe continuaria a fazer oposição, mas pelo menos ele seria um presidente bem mais macho que o senhor.

Não gosto do senhor, mas não tenho ódio, é apenas uma divergência histórico-glandular. O senhor assumiu o governo em cima de um plano financeiro que o senhor sabe que não é seu, até porque lhe falta competência até para entendê-lo em sua inteireza e hoje, levado em grande parte por esse plano, nos governa novamente. Como já disse na semana passada, não lhe quero mal, desejo até grande sucesso para o senhor em sua próxima gestão, não, claro, por sua causa, mas por causa do povo brasileiro, pelo qual tenho tanto amor que agora mesmo, enquanto escrevo, estou chorando.

Eu ouso lembrar ao senhor, que tanto brilha, ao falar francês ou espanhol (inglês eu falo melhor, pode crer) em suas idas e vindas pelo mundo, à nossa custa, que o senhor é o presidente de um povo miserável, com umas das mais iníquas distribuições de renda do planeta. Ouso lembrar que um dos feitos mais memoráveis de seu governo, que ora se passa para que outro se inicie, foi o socorro, igualmente a nossa custa, a bancos ladrões, cujos responsáveis permanecem e permanecerão impunes. Ouso dizer que o senhor não fez nada que o engrandeça junto aos corações de muitos compatriotas, como eu. Ouso recordar que o senhor, numa demonstração inacreditável de insensibilidade, aconselhou a todos os brasileiros que fizessem check-ups médicos regulares. Ouso rememorar o senhor chamando os aposentados brasileiros de vagabundos. Claro, o senhor foi consagrado nas urnas pelo povo e não serei eu que terei a arrogância de dizer que estou certo e o povo está errado. Como já pedi na semana passada, Deus o assista, presidente. Paradoxal como pareça, eu torço pelo senhor, porque torço pelo povo de famintos, esfarrapados, humilhados, injustiçados e desgraçados, com o qual o senhor, em seu palácio, não convive, mas eu, que inclusive sou nordestino, conheço muito bem. E ouso recear que, depois de novamente empossado, o senhor minta outra vez e traga tantas ou mais desditas à classe média do que seu antecessor que hoje vive em Miami.

Já trocamos duas ou três palavras, quando nos vimos em solenidades da Academia Brasileira de Letras. Se o senhor, ao por acaso estar lá outra vez, dignar-se a me estender a mão, eu a apertarei deferentemente, pois não desacato o presidente de meu país. Mas não é necessário que o senhor passe por esse constrangimento, pois, do mesmo jeito que o senhor pode fingir que não me vê, a mesma coisa posso eu fazer. E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais.

20 de jul de 2010

A falácia do tal ranking do ENEM


Se é verdade que o mundo dispensa mais uma opinião acerca da função do ENEM e de seu formato, também é verdade que os astutos membros do INEP sempre vêm com mais uma de suas surpresinhas pra animar o debate. A divulgação feita na segunda (19/07) de um suposto “Ranking Nacional” das escolas é mais uma das cretinices a que estamos todos submetidos. Eis algumas conclusões interessantes:

1) Qualquer um imagina que o número de alunos matriculados em um colégio seja um pouco diferente do número de participantes de um exame. Claro que sempre haverá algum faltoso ou alguém que apenas não queira fazer a tal prova. De fato, se observarmos esses dados, que foram divulgados pelos INEP, veremos que, na maioria das vezes, isso se aplica.

O que desperta a atenção do analista mais atento, no entanto, é que há colégios cujo número de participantes no tal exame é MAIOR que o de matriculados. Há um colégio nas primeiras posições com 37 alunos matriculados, mas com 85 participantes!

Sabem o que isso significa? Que o INEP não tem nenhum controle sobre quem se inscreve. Se o candidato errar o código do seu colégio ou não preenchê-lo, por exemplo, o ranking sai mesmo assim. 



Wanda Engel, presidente do Instituto Unibanco, comenta outro aspecto que deve ser destacado: “(Como o exame não é obrigatório) as escolas podem incentivar que os melhores alunos façam as provas e desestimular os piores. Com isso, ela sai bem na foto. Precisaríamos de um teste universal e obrigatório. Enquanto não tivermos isso, os resultados são aproximações, não a realidade exata”. E não é?

Para divulgar uma tabela dessas para a  imprensa e para o público, o mínimo que se espera é uma checagem dos dados oferecidos pelos alunos na inscrição com os que são publicados no Diário Oficial pelo colégio, em forma de lei. Vocês acham que isso foi feito? Não, né?



2) Nem todas as universidades utilizaram o ENEM da mesma forma. No Rio de Janeiro, a UERJ não participou do exame, a UFRJ usou-o como primeira fase, e a UFF aproveitou-o como bonificação para a segunda fase. As duas últimas, todavia, desconsideraram a redação nos seus processos seletivos.

Claro que muitos alunos, sabendo disso, deixaram de lado a redação, preocupando-se simplesmente em não zerá-la, para se dedicar, com mais tempo, às demais (intermináveis) questões da prova.


O problema é que o INEP usa, para fazer o tal ranking, uma média no mínimo curiosa: eles dividem por dois a média das quatro provas objetivas somada à média da prova de redação. Traduzindo em miúdos pra quem teve preguiça de entender a conta: as 180 questões de múltipla escolha valem metade da nota; a outra metade fica por conta da redação. É mole?

Se contássemos apenas a média das notas obtidas na prova de múltipla escolha, o colégio que ficou em 2º lugar no Rio de Janeiro passaria para o 31º lugar! Dá pra confiar do mesmo jeito na qualidade do ensino do colégio?  Talvez sim, mas não por causa do ranking divulgado com pompa e circunstância pelo INEP.



3) O ranking ignora a presença dos cursos de preparação para o vestibular. Muitos dos colégios particulares que estão nas primeiras posições da tabela têm seus alunos matriculados em cursos que oferecem reforço e preparação específica para essas provas. Por isso, eles ganham posições sem, de fato, produzir um trabalho consistente.


Há que se perguntar a quem interessa algo produzido sem critérios rígidos. O projeto, tal como está, vai na contramão de tudo aquilo a que se propõe. Isso porque o ranking, além de malfeito, cada vez mais reforça o caráter elitista da educação brasileira, elegendo alguns colégios como bons e outros como ruins, aumentando, assim, a concentração do ensino nas mãos de determinados grupos.

Nem tudo é acerto no governo que eu sempre defendo aqui, mas que sei criticar também.

19 de jul de 2010

Resenha minha para o "Ideias & Livros", do Jornal do Brasil

Mariana Ianelli lança o livro de poemas 'Treva alvorada'

Filipe Couto*, Jornal do Brasil


RIO DE JANEIRO - “Vazio de quanto amávamos,/ mais vasto é o céu. Povoações/ surgem do vácuo./ Habito alguma?”. Com estes versos de Carlos Drummond de Andrade, Mariana Ianelli abre o seu Treva alvorada. Feliz referência que dá ao leitor atento uma das chaves necessárias para adentrar o universo – filosófico e lírico – dessa que é uma das mais belas vozes da poesia contemporânea.

Para aproveitar plenamente a leitura dos textos de Mariana, não basta conhecer os referentes míticos (explícitos e implícitos) que permeiam os 45 poemas do seu livro. Não basta, também, deter-se nas metáforas, tão sutis quanto impactantes, que surgem naturalmente no seu texto. É preciso perceber o cuidado com que ela tece cada verso, cuidando discretamente da cadência rítmica, mesmo adotando o verso livre. É preciso perceber o aproveitamento dos elementos mais prosaicos, que criam uma ponte entre o concreto e o inefável. É preciso, sobretudo, perceber que a poesia de Mariana Ianelli nasce do conflito, do contraste.

É no tal vácuo, anunciado por Drummond na epígrafe do livro, que se encontra a motivação lírica da autora (“Deixa-me te ouvir/ No pulso do silêncio/ E que eu não perca/ Em desavença/ O indício do teu passo”). É no desejo de refletir sobre o espaço entre o ser e o não-mais-ser que nasce a sua poesia. Uma poesia que, curiosamente, observa de perto a morte para, finalmente, encontrar a vida.

É por isso que, ao lermos cada página da coletânea Treva alvorada, vivenciamos o paradoxo de tudo e nada saber: a irresistível vontade de buscar as entrelinhas, de buscar um sentido, um norte que, verdadeiramente, não há (“Eu, a quem faltava uma seta/ E sobravam direções”). Nesse processo de “escavação do ar”, estruturalmente reforçado por uma sintaxe fragmentada, realiza-se a fusão entre a perenidade e perecimento, o que possibilita múltiplas leituras e expande as possibilidades simbólicas da produção, incentivando releituras (“Procura as mãos/ Que te cavaram para fora,/ Inaugurando o teu passado,/ Imiscuindo-te entre a fome e o frio”).

Só quando chegamos à última das nove sequências (ou “povoações”) que compõem o livro, entendemos que o percurso produzido pelo eu-lírico não é linear, mas cíclico. Não se parte de um início para se chegar a um fim. Não se propõe uma reflexão que solucione as indagações filosóficas sugeridas ao longo de toda a obra. Pelo contrário, parece haver uma negação do aprendizado recolhido, o que incita o leitor a voltar à primeira página e repetir o caminho em busca de detalhes (“Como se de novo pairasse/ No mundo/ A solidão do primeiro homem”). É a morte que traz a vida; é a vida que traz a morte. Curiosa construção que revela, ainda mais, a capacidade da autora de sondar o íntimo do ser humano.

Isso é particularmente interessante porque a poesia contemporânea realmente carece de um teor mais humanístico. Preocupada em ser diferente, em escrever o que ainda não havia sido escrito, ela questionou a si mesma, abraçou conteúdos críticos e sociais, experimentou novas linguagens e, pelo que se vê, deixou de lado temas clássicos, fundamentais para que o homem entenda a si mesmo e, a partir disso, ao mundo que o cerca. O amor e a morte, Eros e Tânatos, tornaram-se referentes secundários, elementos adjuntos de uma poética distante de seus princípios básicos.

Treva alvorada faz parte de um conjunto de livros que, publicados por diferentes autores nos últimos anos, tentam resgatar, de forma consciente ou inconsciente, esses fundamentos líricos. Num mundo cada vez mais acelerado, maquínico e mercadológico, Mariana Ianelli nos oferece a contramão, a “Absurda leveza que te faz afundar/ e não é a morte”, para que nos tornemos todos “Náufragos do tempo” (versos do poema que dá título à coletânea). É a reflexão que ela quer e que seu livro nos exige.


* Professor de literatura brasileira e portuguesa. Autor de Breves cantares de nós dois.