31 de jan de 2013

Lula num táxi de NY

Venci minha (hipócrita, confesso) rejeição à cultura ianque e fui visitar a terra do Tio Sam.

Desde sempre, acho um absurdo ter que pedir um visto para a entrada num país. Uma humilhação desnecessária. Mas passei a entender melhor as necessidades de segurança e a ter pena da paranoia deles. Ouvi de muitos amigos que Nova Iorque não é bem Estados Unidos (era o próprio mundo!) e passei a gostar da ideia de entender como é a vida dessas pessoas na prática.

Evidente que a vida de turista não permite muita coisa. Fui atacado, nos primeiros dias, por uma indesejável vontade de fazer tudo ao mesmo tempo. Quando percebi a besteira, desacelerei e fui em busca de experiências que pudessem ser realmente memoráveis.

E foram muitas.

Uma delas em particular eu gostaria de compartilhar com os senhores.

À saída de um bar de jazz na Christopher St, The 55s, peguei um táxi. Estava sozinho, era tarde e não conhecia ainda a beleza das facilidades que o metrô novaiorquino oferece.

Pedi ao motorista que me levasse ao meu hotel, que não ficava muito longe dali. Pela minha precária pronúncia, ele reconheceu que eu não era seu conterrâneo e perguntou de onde eu vinha:

- Do Brasil, respondi em relaxado inglês, estou aqui de férias.

- Tenho muita vontade de conhecer o Brasil, o Rio de Janeiro, disse-me ele.

E respondi que eu era de lá mesmo, que a terra dele era bonita, mas que a minha era muito mais. Emendei dizendo que muita gente nossa acaba querendo ser igual aos americanos em tudo, mas que a nossa essência de festa e de alegria não se perdia, ainda assim.

- Nunca vi um brasileiro que não fosse feliz. Quero dizer, toda gente deve ser triste em algum momento, mas vocês sabem olhar o lado bom de tudo.

Concordei e me veio a pergunta assombrosa:

- Como anda a economia do Brasil?

Sempre aprendi que os americanos são uns alienados em geopolítica, daí minha estranheza. Sem saber direito como usar a sintaxe correta, esforcei-me para dizer:

- Muito melhor do que já foi um dia. Em dez anos, tiramos mais de trinta milhões de pessoas da miséria, nunca tivemos tantos jovens nas escolas e nas universidades, distribuímos renda a quem precisa e nosso desemprego é de menos de 5%.

- E a corrupção? Ele perguntou.

- Problema de todos os países, não? No Brasil, durante muito tempo houve mais impunidade; hoje o governo incentiva as denúncias sérias, mas sofre com os boatos.

- O Brasil, então, é diferente da Venezuela?

- De certa forma, sim, respondi. Mas é difícil julgar. As elites dominavam as informações, e os venezuelanos são menos pobres com Chavez.

- Chavez aqui é o próprio "diablo", disse-me ele.

- Uma pena, respondi.

Depois de um breve silêncio, ele arremata:

- Vocês tiveram um grande presidente. Lula. Um homem sério, um homem bom. Ele viu o que ninguém conseguia ver.

- E a imprensa bate muito nele, sabia?

- Mas a imprensa faz isso aqui também. O Obama teve dificuldade pra fazer um pouco do que vocês têm lá: saúde pra todos. Sei que vocês têm problemas com isso, mas é algo que ninguém aqui sonhava. Aqui se fala muito sobre ser "maker" ou "taker". Os necessitados ("takers") são uma maldição pra algumas pessoas. Obama não consegue fazer nada do que gostaria porque os americanos não entendem. Lula conseguiu, e isso deve mostrar um pouco de como vocês são. Ele é "o cara", né? Vocês também devem ser!

Eu concordei com um sorriso largo.

- Pode dizer a todo mundo lá: eu queria que meu presidente fosse o Lula.

Sonjay, meu amigo taxista, seu recado está dado.