20 de jan de 2014

O meu Rio não é só um lugar

O meu Rio de Janeiro comporta e amansa muitos clichês. 

É a terra entre o mar e a montanha, onde mora o sol que arromba, alumbra e desperta a vista de quem o vê. 

Mas o meu Rio não é só um lugar. É um modo especial de enxergar a vida. Nascer no Rio é circunstancial; ser do Rio é um estado de espírito. 

Ser carioca não é gostar de praia, embora lá possamos encontrar a metonímia de tudo aquilo que belamente representamos. Existem cariocas que gostam de calor, e os que não gostam; os de corpos sarados e os sedentários; os do samba e os do rock. Não é isso que nos define. 

Somos é profundamente emotivos, impulsivos. A carioquice está no abraçar, dar dois beijos e mexer no cabelo de quem nunca se viu antes na vida. Depois desse ritual de encontro, sabemos: se a pessoa abriu um sorriso, já nos conquistou e merece ser tratada, não pelo nome, mas por um diminutivo carinhoso, nossa maneira de dizer: "Você é dos nossos...!" 

E queremos ser livres. Chinelo é nossa roupa de gala. E não temos medo algum de marcar compromissos e desrespeitá-los. Quando dizemos para alguém querido "Vamos marcar alguma coisa?", estamos, na verdade, dizendo: "Eu gosto demais de você... Tomara que a gente se esbarre com tempo em outra ocasião". 

Acusam-nos de conformistas e indolentes. Nada disso. A festa é a nossa maneira de reivindicar, de revolucionar. Somos debochados. Botamos pilha. Zoamos. É a nossa manifestação sociológica mais apaixonante. Há quem, de fora, também interprete isso como rudeza; pelo contrário, é nossa forma de dizer para o mundo: não queremos brigar. Nossas provocações são manifestações de paz. Porque queremos paz. 

Na nossa essência, não há classes ou cores. Nas praias e nos estádios, estamos todos juntos. Por isso, para um carioca de verdade, dói tanto ver quem queira fechar espaços privados (ou oferecê-los para um público selecionado) e causa indignação ver o subúrbio maltratado ou o pobre discriminado. Isso é o anticarioquismo em toda sua força. 

No Rio, ninguém se diverte sozinho. Por isso, enchemos as ruas em diversas ocasiões. Não importa se é Carnaval, se disseram que se trata de uma manifestação política, se estamos em redes sociais: precisamos uns dos outros. A conversa à toa, às vezes, parece-me invenção nossa. Gostamos de estar juntos. 

A cultura popular é a nossa cultura. Rica e plural. Oferecemos flores à Iemanjá, acreditamos em reencarnação, casamos na Igreja. É-nos inconcebível a intolerância religiosa ou sexual. 

Hoje é dia de São Sebastião; é dia de Oxóssi. Que suas flechas, meu pai, nos protejam de todos aqueles que nos querem fazer perder nossa verdadeira essência, tornando-nos uma "filial de Ibiza" ou uma terra de apartheid, impondo-nos um vira-latismo sem sentido. Não somos perfeitos. Mas somos o Rio. O mundo que copie nosso jeito de ser. 

E sim: somos marrentos merrrrrmo.

(por Filipe Couto)