7 de mar. de 2010

Inania Verba**

E ela chegou no seu vestido demasiadamente preto. Foi dela a nobreza de um primeiro gesto. Tocando meu braço, perguntou-me como andava a vida.

E eu queria saber dizer. Eu poderia, na verdade. Mas é que o mundo gira muito mais rápido agora, entende? E o que eu falo nesse agora, já não é mais o que eu falaria há um minuto. As estações não se sucedem; dentro da gente, elas se imbricam. Existe tanto a ser dito. Eu não gostaria de, simplesmente... Entende? Não é tão fácil assim amassar e amansar tudo isso num só peito sem sangrar, sem gritar, sem fugir. E eu não queria nem gritar, nem fugir. O mal que é bem, e não se sabe. Não é fácil, entende? E se a palavra mal cuidada escapa, e se o vento fecha olhos e ouvidos, e se ele leva tudo pra outra ponta da margem do sentido? É muito perigoso pensar em dizer. É preciso silêncio. Eu preciso de silêncio pra pensar, pra dizer. Mas, com você, há crianças e velhos rabugentos discutindo em cada canto da minha criação e, quem sabe... Entende? É como olhar a árvore (reta, força, cor e céu) e pensar na raiz: o real está além do que se vê. Eu precisava me perder pra não te perder, e nos perdia.

- Bem, bem... E a sua?
(por Filipe Couto)
*postado originalmente em www.asoutraspalavras.blogspot.com no dia 15 de dezembro de 2009.
*"Inania verba", em latim, significa "palavras inúteis" e é título, também, de um famoso poema do mestre Olavo Bilac.

6 de mar. de 2010

Conselhos de Polonius a Laertes, seu filho

Em Hamlet, de William Shakespeare (1564 - 1616):

"Ainda aqui, Laertes? Para bordo! O vento se acha a tergo de tua vela; já te reclamam. Vai com a minha bênção, e grava na memória estes preceitos:

Não dês língua aos teus próprios pensamentos, nem corpo aos que não forem convenientes.

Sê lhano (*simpático), mas evita abastardares-te (*corromper-se).

O amigo comprovado, prende-o firme no coração com vínculos de ferro, mas a mão não calejes com saudares a todo instante amigos novos.

Foge de entrar em briga; mas, brigando, acaso, faze o competidor temer-te sempre.

A todos, teu ouvido; a voz, a poucos; ouve opiniões, mas forma juízo próprio.

Conforme a bolsa, assim tenhas a roupa: sem fantasia; rica, mas discreta, que o traje às vezes o homem denuncia.

Não emprestes nem peças emprestado; que emprestar é perder dinheiro e amigo, e o oposto embota o fio à economia.

Mas, sobretudo, sê a ti próprio fiel; segue-se disso, como o dia à noite, que a ninguém poderás jamais ser falso."

31 de dez. de 2009

Conto de Ano Novo

Tinha mais nos olhos que no verbo aquela menina. E ainda não sabia se o real e o ideal eram paralelos ou contíguos. Nem sabia o que era con-tí-guo.

Mas imaginava. Imaginava tudo.

Imaginava, por exemplo, que era possível voar, se quisesse bem forte. E por isso apertava os olhos e ficava sem respirar por mais de um minuto – só desejando, desejando, desejando... Ficava tonta... Mas se achava mais próxima das nuvens que do chão.

Acreditava até que era possível controlar o tempo. E se orgulhava de ter mudado muitas histórias tristes, antes de elas se tornarem tristes. E se orgulhava de conseguir esquecer todas, para poder parecer surpresa quando elas acontecessem. Porque esse dom era seu segredo. Só seu.

Às vezes se cansava de amar tudo com tanta força. Tinha medo de pensar mal das pessoas e de desejar mal a elas. Não gostava do réveillon porque podia estar desatenta no exato instante da virada, e condenar um mundo todo.

Ficava encantada com Deus, aquele ser maravilhoso.
(por Filipe Couto)

19 de ago. de 2009

Festival Voz e Violão

Com muito orgulho, apresento Priscilla Frade defendendo, com valentia, a nossa música "Gaveta de Guardados" no Festival Voz e Violão:

12 de ago. de 2009

Flamengo

Uma pausa na gripe para dar espaço a dois tricolores:

1 - Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnico, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E, diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.
Nelson Rodrigues

2 - Ser Flamengo (leia o texto em silêncio ou deixe-se acompanhar pela interpretação de Milton Gonçalves, que está no vídeo)

Ser Flamengo é ser humano e ser inteiro e forte na capacidade de querer. É ter certezas, vontade, garra e disposição. É paixão com alegria, alma com fome de gol e vontade com definição.

É ser forte como o que é rubro e negro como o que é total. Forte e total, crescer em luta, peleja, ânimo, e decisão.

Ser Flamengo é deixar a tristeza para depois da batalha e nela entrar por inteiro, alma de herói, cabeça de gênio militar e coração incendiado de guerreiro. É pronunciar com emoção as palavras flama, gana, garra, sou mais eu, ardor, vou, vida, sangue, seiva, agora, encarar, no peito, fé, vontade. Insolação.

Ser Flamengo é morder com vigor o pão da melhor paixão; é respirar fundo e não temer; é ter coração em compasso de multidão.

Ser Flamengo é ousar, é contrariar norma, é enfrentar todas as formas de poder com arte, criatividade e malemolência. É saber o momento da contramão, de pular o muro, de driblar o otário e de ser forte por ficar do lado do mais fraco. É poder tanto quanto querer. É querer tanto como saber; é enfrentar trovões ou hinos de amor com o olhar firme da convicção.

Ser Flamengo é enganar o guarda, é roubar o beijo. É bailar sempre para distrair o poder e dobrar a injustiça. É ir em frente onde os outros param, é derrubar barreiras onde os prudentes medram, é jamais se arrepender, exceto do que não faz. É comungar a humildade com o rei interno de cada um.

É crer, é ser, é vibrar. É vencer. É correr para; jamais correr de. É seiva, é salva; é vastidão. É frente, é franco, é forte, é furacão. É flor que quebra o muro, mão que faz o trabalho, povo que faz país.
Artur da Távola

14 de jan. de 2009

O mundo maquinal e a arte


Vivemos um momento tão complexo quanto delicado no desenvolvimento da nossa sociedade.

A lógica do mercado, a lógica da eficácia pela eficácia ajusta nossas vidas a modelos de agir, pensar e sentir que só denunciam a falência do modelo ocidental de civilização.

Acreditamos que é fundamental ter sucesso. E que sucesso é ter reconhecimento. E que reconhecimento é ter uma vida cada vez mais cheia – cheia de trabalho, cheia de obrigações, solicitações, papéis, computadores e decisões a executar; acreditamos que um homem bem-sucedido nunca pode ter tempo.

Acreditamos que muito da felicidade consiste em ter um bom emprego (e acreditamos que bom emprego é aquele que garante um bom dinheiro para pagar as contas em algum momento do fim do mês).

Acreditamos que segurança é mostrar serviço. E, por isso, temos que ser eficientes, rápidos, atentos e precisos; devemos estar sempre atualizados com as últimas novidades, com as últimas informações, com as últimas tecnologias, pois todo o nosso futuro, toda a nossa credibilidade pode depender disso. Há quem assine jornais e revistas, leia blogues especializados, ouça rádio, assista à televisão simplesmente para saber o que pensar sobre o mundo e sobre si mesmo. Mais ainda: há quem se algeme à grande mídia simplesmente para não enxergar o mundo de forma diferente da dos outros homens, por medo de ser excluído.

Que paradoxo: o homem ocidental sempre desejou ser livre, mas tem medo de romper com o sistema e, por isso, se fecha às possibilidades do mundo.

Acreditamos que são necessários corpos melhores e que corpos melhores não são necessariamente saudáveis, mas corpos mais bonitos e fortes. Queremos ser desejados, admirados, reverenciados como imagens sedutoras, como estátuas imortais de beleza. E para isso frequentamos academias em horários absurdos, fazemos dietas incompreensíveis, cobiçamos pessoas de quem jamais ouvimos um só pensamento autônomo e construtivo.

Parece que o homem, por não entender o que significa ser homem, deseja ser uma espécie de super-homem. Não o do Nietzsche ou o dos quadrinhos, mas aquele que se define por querer ser tudo ao mesmo tempo, sempre da forma mais eficiente possível. O espelho do homem não é mais outro homem e sim a máquina, símbolo de perfeição, eficiência e produtividade, símbolo que o homem sonhou e que o fez sonhar com uma realidade sem defeitos. Fazer poesia, desenhar, musicar, esculpir, dançar ou mesmo refletir soam como atividades improdutivas, coisa de fraco, bobo, louco ou desocupado.

O homem de hoje não se entrega à sua sensibilidade. Ou ainda, o homem de hoje é incapaz de reconhecer a grandeza de sua sensibilidade, das suas emoções: falta tempo pra isso. Ele busca a felicidade, mas não sabe onde encontrá-la, porque ele nunca pensou por si próprio; ele sonha com um grande amor, mas não tem idéia de como vivê-lo, porque sequer se conhece, porque aplica às emoções a lógica do mercado. Quantas e quantas pessoas estão por aí hoje "se curtindo", sem nenhuma pretensão de crescer com esse tipo de relacionamento? Quantas e quantas pessoas se metem em namoros e casamentos porque seus pares são "legais"?

Mas chega um momento
em que (sem heroísmos ou egoísmos)
é preciso inventar um pequeno barco no ar

(ou um outro sonho qualquer
que nos arranque o chão dos pés).

Chega um momento
em que não se pode aguardar o vento,
em que temos que nos arremessar ao mar.

Porque é urgente salvar o amor.

Chega um momento em que é urgente amar.

Por isso, é tão importante valorizar o artista.

Eles sim merecem ser admirados e reverenciados. E merecem ser admirados e reverenciados porque transgridem os limites dessa realidade maquinal. Dedicam-se a produzir trabalhos que não vão torná-los mais ricos ou mais fortes, mas que vão lembrar a todos nós que ainda “somos carne, osso, alma e sentimento, tudo isso ao mesmo tempo”. Trabalhos que falam sobre sonhos, fantasias, medos, paixões e covardias e que, por isso, vão lembrar a todos nós que o ser humano precisa sim ter imperfeições, porque só sabemos o que é a felicidade porque existe a tristeza; só sabemos o que é a beleza, porque existe a feiúra; porque sabemos que toda ousadia precisa conviver de perto com o pudor. Trabalhos que vão nos lembrar que, às vezes, é preciso “levar a vida mais devagar, pra não faltar amor”.

O ser humano precisa urgentemente da arte. Precisa porque a arte faz pensar. Ouvir uma boa música, ler um bom livro, apreciar uma tela não são perda de tempo. Pelo contrário, são atividades que certamente vão desenvolver nosso potencial reflexivo, crítico e criativo e que, por isso, vão permitir uma melhor absorção dessa avalanche de informações, símbolos e imagens a que estamos submetidos todos os dias.

O ser humano precisa da arte porque nesse mundo tão individualista é bom sabermos que não estamos sozinhos nas nossas angústias e nas nossas alegrias; que um outro ser humano de outra realidade histórica é capaz de sentir exatamente o que nós estamos sentindo; porque, afinal de contas, a arte tem essa incrível capacidade de nos entender e de nos descobrir. Sem fazer muitas perguntas.

(por Filipe C.)
Os vídeos a seguir complementam essa reflexão e a expandem. Assistam a eles!