31 de dez de 2009

Conto de Ano Novo

Tinha mais nos olhos que no verbo aquela menina. E ainda não sabia se o real e o ideal eram paralelos ou contíguos. Nem sabia o que era con-tí-guo.

Mas imaginava. Imaginava tudo.

Imaginava, por exemplo, que era possível voar, se quisesse bem forte. E por isso apertava os olhos e ficava sem respirar por mais de um minuto – só desejando, desejando, desejando... Ficava tonta... Mas se achava mais próxima das nuvens que do chão.

Acreditava até que era possível controlar o tempo. E se orgulhava de ter mudado muitas histórias tristes, antes de elas se tornarem tristes. E se orgulhava de conseguir esquecer todas, para poder parecer surpresa quando elas acontecessem. Porque esse dom era seu segredo. Só seu.

Às vezes se cansava de amar tudo com tanta força. Tinha medo de pensar mal das pessoas e de desejar mal a elas. Não gostava do réveillon porque podia estar desatenta no exato instante da virada, e condenar um mundo todo.

Ficava encantada com Deus, aquele ser maravilhoso.
(por Filipe Couto)

5 de nov de 2009

Este Calor Anda Insuportável!

Belíssima crônica/conto de Carlos Eduardo Novaes para ajudar a suportar este calor. Abraços!

O Day After do Carioca
(Ou: o Dia em que o Rio de Janeiro Derreteu)

Aparentemente aquele dia amanheceu igual a todos os outros do mês de janeiro. Céu azul, lavado, um sol forte e musculoso ainda se espreguiçando, uma promessa de calor. Manhã sob medida para turistas, estudantes em férias e desempregados. O Rio, quando quer, sabe como nenhuma outra cidade se enfeitar para o verão. D. Odete Araújo abriu a janela de sua casinha em Bangu e girou a cabeça como se tentando perscrutar o tempo. Viu um cidadão parado na calçada segurando um cigarro. A fumaça do cigarro subia em linha reta, parecia traçada a régua. Não havia a mais leve brisa no ar. D. Odete respirou fundo, passou as costas da mão na testa gotejante e comentou com a vizinha:

–– Acho que hoje chegaremos aos 45 graus.

Os moradores de Bangu entendem mais do que todos de altas temperaturas. A vizinha deu de ombros. Um grau a mais ou a menos não faz diferença neste inferno suburbano. Na véspera, os termômetros de Bangu acusaram 44.8 graus, quebrando os recordes dos anos de 84, 85, 86 e 87. D. Odete comentou num tom cabalístico que aquele era o 13º dia consecutivo que o Rio se debatia com uma febre de 40 graus.

No Centro da cidade, um movimento típico das manhãs de verão. As pessoas procurando as sombras, procurando os bares, procurando diminuir o ritmo. Nada de anormal. O contínuo Ademar Ferreira, porém, percebeu o termômetro digital, que uma hora antes acusava 43 graus, agora marcando 48. O amigo, com quem conversava numa esquina da Avenida Rio Branco, disse que os termômetros estavam de miolo mole. Ontem vira um marcando 54 graus. Ademar continuou conversando, tornou a olhar o termômetro: 49 graus. Notou certa inquietação no ar. Os transeuntes se mexiam mais, tiravam o paletó, afrouxavam a gravata: 50 graus. Outras pessoas começaram a perceber a escalada dos termômetros. O calor aumentava: 51 graus. Um grupo preocupado se reuniu em torno de um orelhão e ligou para o Serviço de Meteorologia. O que está acontecendo? Os cientistas admitiam que a temperatura subia, vertiginosa, mas desconheciam as razões. Estavam acompanhando uma frente fria encalhada na Patagônia.

As pessoas se aglomeravam diante dos termômetros como se acompanhassem o movimento de apenas um toque: 53 graus. As expressões revelavam medo e tensão. O calor tornava-se escaldante. Era como se tivessem ligado o forno da Rio Branco: 55 graus. Não dava mais para ficar exposto ao sol. As pessoas procuraram proteção embaixo das marquises. Muitas, nervosas, se refugiavam em lojas e escritórios com ar condicionado: 56 graus. Um bando de honrados cidadãos invadiu uma loja de eletrodomésticos:

–– Liguem os ventiladores, pelo amor de Deus!

–– Infelizmente vendemos todos – respondeu o vendedor, torcendo o lenço empapado de suor.

Na Zona Sul o pânico se alastrava como um rastilho de pólvora. Edevaldo Santos, vendedor de picolés na praia, notou que algo estranho acontecia quando abriu a caixa de isopor e viu os palitos boiando num caldo de sorvete: 60 graus. Não dava mais para atravessar a areia quente. Quem ficou na praia já não podia sair. Dois helicópteros procuravam transportar os banhistas. Primeiro, velhos e crianças! A praia, como a cidade, já estava sob o império do caos, apesar das rádios e televisões pedirem calma à população. A corda que pendia dos helicópteros era disputada a tapa: 65 graus. Faltava ar, a garganta secava, o corpo parecia incandescente. A estudante Luísa Coelho lembrou-se de Joana D’Arc. Teve início a invasão de bares, restaurantes, supermercados. Todos corriam às prateleiras de bebidas. Água, refrigerantes, cerveja, vinho, champanhe, qualquer líquido. Tinha gente bebendo Pinho-Sol.

O trânsito enlouqueceu de vez. Os motoristas abandonavam seus carros nos congestionamentos. Os ônibus eram largados em qualquer lugar. Os veículos transformavam-se em fornos crematórios: 74 graus. Os pneus começaram a derreter. Nas ruas as pessoas iam se desfazendo das roupas. Vários executivos foram vistos se esgueirando pelos cantos, de cueca, meias e pasta. Começou a invasão dos apartamentos com ar condicionado. Eles viraram uma espécie de abrigo nuclear. Só na minha sala havia 67 pessoas se empurrando para botar a cara na frente do aparelho: 80 graus. De repente ouviu-se um ruído e logo o silêncio do ar-condicionado. A cidade ficara sem energia. O calor derreteu os cabos da Light. O sol esquentava os vidros e o concreto dos prédios.

Era insuportável o calor nos apartamentos. A população desesperada saiu às ruas à cata de sombras. Num poste em Madureira havia 23 pessoas espremidas e perfiladas ao longo de sua tira de sombra: 84 graus!

Os carros dos Bombeiros circulavam pelas ruas com um restinho de água molhando a população. “Aqui, aqui! Joga aqui antes que eu pegue fogo!” Os chafarizes da cidade estavam mais cheios do que trem da Central. Milhares de pessoas mergulhavam na Lagoa Rodrigo de Freitas. Só que esta, como as outras lagoas da cidade, secava rapidamente. As poucas matas pegavam fogo. As ruas de terra rachavam ao melhor estilo nordestino. O asfalto começou a borbulhar. Ploft! A cidade se transformava num caldeirão: 88 graus. No cais do porto os marinheiros se atiravam no convés como se os navios estivessem naufragando. No Santos Dumont um avião da Ponte-Aérea, ao invés de levantar vôo, embicou dentro d’água. O piloto foi aplaudidíssimo pelos passageiros.

A temperatura estava em torno dos 94 graus. No Sumaré as antenas das emissoras de televisão adernavam, desmaiando lentamente. O Pão de Açúcar começou a derreter como um sorvete de casquinha. Uma mancha escura se espalhava pelo mar. No meio, boiando, o bondinho com turistas americanos fotografando tudo. Outros morros também derretiam. O Dois Irmãos, para surpresa geral, entrou em erupção. A estátua de Cristo tinha desaparecido do alto do Corcovado. Dizem que, quando o morro começou a desmanchar, Ele saiu com seus braços abertos. Todo mundo já estava tendo visões e alucinações. Nas calçadas da Visconde de Pirajá – lado da sombra – as pessoas se arrastavam aos gritos de “água, água”. Eram inúmeras as miragens. O pipoqueiro Manuel de Souza jura que viu as Sete Quedas na Praça Nossa Senhora da Paz.

Às 17h12min., por fim, o sol começou a perder a força. As pessoas, ainda desconfiadas, foram saindo de dentro das geladeiras, freezers, frigoríficos. Nas câmaras frigoríficas da Cibrazem – contou-se – havia 12 mil 344 pessoas. Uma sensação de forno quente pairava sobre o Rio. Somente à meia-noite os termômetros voltaram ao normal: 40 graus. Terminara o efeito-estufa, deixando um rastro de dor e destruição. Não havia uma única gota d’água na cidade. Fomos dormir e no Day After, como não havia trabalho, saímos todos para a praia. Pois creiam: no meio do comércio de sanduíches naturais, chapéus, cocadas, óleo para bronzear, o diabo, já tinha nego vendendo um aparelhozinho para dessalinizar a água do mar.

(NOVAES, Carlos Eduardo. O Day After do Carioca. Rio de Janeiro : Nórdica, 1985.)

12 de set de 2009

"Gabarito" do Desafio

A Lina deu a dica (vejam aqui, nos comentários do desafio) e o google colaborou! De fato, dei uma boa fuçada e a identificação da maior parte dos membros deste glorioso encontro está na grande rede. No site Last.fm, por exemplo, encontramos até uma imagem que facilita a correspondência entre nomes e pessoas. Reproduzo-a abaixo:

O Nelson Mota, à época repóter do JB, descreveu assim o encontro:

Histórica foto da MPB, tirada na cobertura de Vinicius de Morais, no Jardim Botânico, quando os grandes nomes e os jovens talentos da música popular se reuniram para produzir músicas de carnaval, convidados por Vinicius a pedido da gravadora Philips, então dirigida por João Araujo, pai de Cazuza. As músicas de carnaval estavam decadentes, de baixíssimo nivel, e Vinicius conclamou os presentes a produzir sambas, frevos e marchinhas que restaurassem o esplendor e a alegria de velhos carnavais. De copo de uísque e cigarro na mão, de terno e gravata listrada, o jovem compositor (e também reporter do Jornal do Brasil, que estava cobrindo o encontro). Atrás dele, Luiz Eça, grande pianista e fundador do Tamba Trio, ao lado, de jaqueta de veludo e calça clara, um lorde inglês, Francis Hime, atrás dele Helena Gastal, futura grande figurinista de novelas da TV Globo, ao lado de Francis sua futura mulher, de preto e meias brancas, Olivia Hime, atrás dela, de paletó e gravata, meio boquiaberto, Edu Lobo, com o braço sobre os ombros de Lenita Plonczynska, depois parceira de Domingos de Oliveira em inumeros roteiros de televisão, na época esposa de Luiz Eça. À esquerda de Edu, Tom Jobim lindíssimo, na flor da idade, ao lado dele, de cabelos curtos e paletó escuro, o jovem e talentosíssimo poeta Torquato Neto, recém-chegado ao Rio com Gilberto Gil (o único dos “grandes nomes da MPB” da época que não estava no encontro) e Caetano Veloso, ao seu lado, sorridente e de cabelos cheios, ao lado do poeta baiano e letrista maior, o futuro tropicalista José Carlos Capinam, tendo ao lado, todo de branco, sereno e elegante, o jovem Paulinho da Viola, criado na Portela e revelado no histórico show “ Rosa de Ouro”, de Herminio Bello de Carvalho. Ao lado de Paulinho, de cabelo repartido, o talentoso compositor Sidney Miller, que foi meu colega no Colégio Santo Inácio, onde tinha o apelido de “Ratinho” e morreu com trinta e poucos anos. Logo abaixo dele, de bigode e óculos, bem sério, Dori Caymmi, ao lado dele, todo bonitão de sueter clara e camisa escura, João Araújo. Depois Vinicius, como sempre de camisa preta, de braço dado com Linda Batista, a veterana cantora, uma expert em carnaval. Entre Vinicius e eu, de tailleur, a filha do então prefeito Negrão de Lima, Jandira, compositora amadora, convidada por Vinicius numa jogada de diplomacia artística. Ao lado de Linda Batista, lindíssimo, de gola rulê, Chico Buarque, na frente dele, de bigodinho, meio careca, de camisa clara e terno escuro, o grande violonista e compositor Luiz Bonfá. Atrás dele, com um ar meio cansadão, o negro de terno claro e gravata escura, é Zé Kéti, um dos grande nomes do samba carioca, que dividiu com Nara Leão e João do Vale o estrondoso sucesso do musical politizado Opinião, ao lado dele, segurando um cachorro (por que um cachorro ali ?) uma jovem desconhecida, ao lado dela, de paletó e camisa clara, olhando de lado meio esquisito e de copo na mão, o futuro genial arranjador Eumir Deodato. Na extrema direita outra jovem desconhecida, sem ligação profissional com a música, talvez mais uma das “viniçettes”, fãs do poeta que o seguiam em festas e reuniões. Ao seu lado, de cabelos escuros repartidos em bandó, a bela mineira Maria Helena Toledo, mulher de Bonfá, tendo ao lado, de cabelos curtos, a compositora e cantora paulista Tuca, gorda e simpática, vitoriosa em festivais e iniciando carreira promissora, morreu com menos de 30 anos, do coração. Na frente, de cabeça branca, o já veterano João de Barro, o “Braguinha”, o maior compositor de carnaval de todos os tempos, o único profissional entre os presentes. Foi o único que fez uma música de carnaval, os outros todos só beberam uísque e saíram na foto, sem saber que estavam fazendo história com o que não aconteceu.


Obrigado a todos que enviaram cometários! Lina, Carlão, Diego, Nina, Eduardo e Sâmia: vocês foram sensacionais!


Brincadeira boa essa de rememorar tanta gente competente desta nossa terra!

10 de set de 2009

Desafio

Muita gente boa nessa foto clássica! Dizem tratar-se de uma reunião para organizar um movimento (que, aliás, não foi pra frente) com o objetivo de revitalizar a música de carnaval. Alguém se aventura a reconhecer todos os rostos?

23 de ago de 2009

Gênios da Raça

Angenor de Oliveira, o Cartola, tinha onze quando passou a viver no morro da Mangueira, de onde não mais se afastaria. Nasceu em 1908; foi oló em 1980.

Gênio da nossa raça, ei-lo aqui para fazer melhor nosso dia:

Comentando sua própria obra, ele disse: "Gosto de fazer samba de dor de cotovelo, falando de mulher, de amor, de Deus, porque é isso que acho importante e acaba se tornando uma coisa importante." (Almanaque da Folha de São Paulo).

E, cá entre nós, será que existe coisa mais importante nesse mundo, meus queridos?

Nota extra: meu querido amigo Luiz Antônio Simas, dono do indispensável Histórias do Brasil, lembra que essa música é uma parceria do mestre com o nobre Dalmo Castello. Salve, Cartola! Salve, Dalmo!

20 de ago de 2009

Jardineiros e Caçadores

Extraído da Revista Cult (edição 138):

A utopia possível na sociedade líquida

Zygmunt Bauman é um dos pensadores contemporâneos que mais têm produzido obras que refletem os tempos contemporâneos. Nascido na Polônia em 1925, o sociólogo tem um histórico de vida que passa pela ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial, pela ativa militância em prol da construção do socialismo no seu país sob a direta influência da extinta União Soviética e pela crise e desmoronamento do regime socialista.

Atualmente, vive na Inglaterra, em tempo de grande mobilidade de populações na Europa. Professor emérito de sociologia da Universidade de Leeds, Bauman propõe o conceito de "modernidade líquida" para definir o presente, em vez do já batido termo "pós-modernidade", que, segundo ele, virou mais um qualificativo ideológico.

Bauman define modernidade líquida como um momento em que a sociabilidade humana experimenta uma transformação que pode ser sintetizada nos seguintes processos:

- a metamorfose do cidadão, sujeito de direitos, em indivíduo em busca de afirmação no espaço social;

- a passagem de estruturas de solidariedade coletiva para as de disputa e competição;

- o enfraquecimento dos sistemas de proteção estatal às intempéries da vida, gerando um permanente ambiente de incerteza;

- a colocação da responsabilidade por eventuais fracassos no plano individual;

- o fim da perspectiva do planejamento a longo prazo;

- e o divórcio e a iminente apartação total entre poder e política.

A seguir, a íntegra da entrevista concedida pelo sociólogo à revista CULT.

CULT - Na obra Tempos líquidos, o senhor afirma que o poder está fora da esfera da política e há uma decadência da atividade do planejamento a longo prazo. Entendo isso como produto da crise das grandes narrativas, particularmente após a queda dos regimes do Leste Europeu. Diante disso, é possível pensar ainda em um resgate da utopia?

Zygmunt Bauman - Para que a utopia nasça, é preciso duas condições. A primeira é a forte sensação (ainda que difusa e inarticulada) de que o mundo não está funcionando adequadamente e deve ter seus fundamentos revistos para que se reajuste. A segunda condição é a existência de uma confiança no potencial humano à altura da tarefa de reformar o mundo, a crença de que "nós, seres humanos, podemos fazê-lo", crença esta articulada com a racionalidade capaz de perceber o que está errado com o mundo, saber o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos, e ter força e coragem para extirpá-los. Em suma, potencializar a força do mundo para o atendimento das necessidades humanas existentes ou que possam vir a existir.


CULT - Por que se fala tanto hoje de "fim das utopias"?

Bauman -
Na era pré-moderna, a metáfora que simboliza a presença humana é a do caçador. A principal tarefa do caçador é defender os terrenos de sua ação de toda e qualquer interferência humana, a fim de defender e preservar, por assim dizer, o "equilíbrio natural". A ação do caçador repousa sobre a crença de que as coisas estão no seu melhor estágio quando não estão com reparos; de que o mundo é um sistema divino em que cada criatura tem seu lugar legítimo e funcional; e de que mesmo os seres humanos têm habilidades mentais demasiado limitadas para compreender a sabedoria e harmonia da concepção de Deus.

Já no mundo moderno, a metáfora da humanidade é a do jardineiro. O jardineiro não assume que não haveria ordem no mundo, mas que ela depende da constante atenção e esforço de cada um. Os jardineiros sabem bem que tipos de plantas devem e não devem crescer e que tudo está sob seus cuidados. Ele trabalha primeiramente com um arranjo feito em sua cabeça e depois o realiza.

Ele força a sua concepção prévia, o seu enredo, incentivando o crescimento de certos tipos de plantas e destruindo aquelas que não são desejáveis, as ervas "daninhas". É do jardineiro que tendem a sair os mais fervorosos produtores de utopias. Se ouvimos discursos que pregam o fim das utopias, é porque o jardineiro está sendo trocado, novamente, pela ideia do caçador.


CULT - O que isso significa para a humanidade de hoje?

Bauman
- Ao contrário do momento em que um dos tipos passou a prevalecer, o caçador não podia cuidar do global equilíbrio das coisas, natural ou artificial. A única tarefa do caçador é perseguir outros caçadores, matar o suficiente para encher seu reservatório. A maioria dos caçadores não considera que seja sua responsabilidade garantir a oferta na floresta para outros, que haja reposição do que foi tirado.

Se as madeiras de uma floresta forem relativamente esvaziadas pela sua ação, ele acha que pode se deslocar para outra floresta e reiniciar sua atividade. Pode ocorrer aos caçadores que um dia, em um futuro distante e indefinido, o planeta poderia esgotar suas reservas, mas isso não é a sua preocupação imediata, isso não é uma perspectiva sobre a qual um único caçador, ou uma "associação de caçadores", se sentiria obrigado a refletir, muito menos a fazer qualquer coisa.

Estamos agora, todos os caçadores, ou ditos caçadores, obrigados a agir como caçadores, sob pena de despejo da caça, se não de sermos relegados das fileiras do jogo. Não é de admirar, portanto, que, sempre que estamos a olhar a nosso redor, vemos a maioria dos outros caçadores quase sempre tão solitária quanto nós. Isso é o que chamamos de "individualização".

E precisamos sempre tentar a difícil tarefa de detectar um jardineiro que contempla a harmonia preconcebida para além da barreira do seu jardim privado. Nós certamente não encontraremos muitos encarregados da caça com interesse nisso, e sim entretidos com suas ambições. Esse é o principal motivo para as pessoas com "consciência ecológica" servirem como alerta para todos nós. Esta cada vez mais notória ausência do jardineiro é o que se chama de "desregulamentação".

"Para que a utopia renasça, é preciso a confiança no potencial humano à altura da tarefa de reformar o mundo"


CULT - Diante disso, a esquerda não tem possibilidades de ter força social?

Bauman
- É óbvio que, em um mundo povoado principalmente por caçadores, não há espaço para a esquerda utópica. Muitas pessoas não tratam seriamente propostas utópicas. Mesmo que saibamos como fazer o mundo melhor, o grande enigma é se há recursos e força suficientes para poder fazê-lo.

Essas forças poderiam ser exercidas pelas autoridades do engenhoso sistema do Estado-nação, mas, como observou Jacques Attali em La voie humaine, "as nações perderam influência sobre o curso das coisas e delegaram às forças da globalização todos os meios de orientação do mundo, do destino e da defesa contra todas as variedades do medo". E as forças da globalização são tudo, menos instintos ou estratégias de "jardineiros", favorecem a caça e os caçadores da vez.

O Thesaurus [dicionário da língua inglesa, de 1892] de Roget, obra aclamada por seu fiel registro das sucessivas mudanças nos usos verbais, tem todo o direito de listar o conceito de utópico como "fantasia", "fantástico", "fictício", "impraticável", "irrealista", "pouco razoável" ou "irracional". Testemunhando assim, talvez, o fim da utopia.

Se digitarmos a palavra utopia no portal de buscas Google, encontraremos cerca de 4 milhões e 400 mil sites, um número impressionante para algo que estaria "morto". Vamos, porém, a uma análise mais atenta desses sites. O primeiro da lista e, indiscutivelmente, o mais impressionante é o que informa aos navegantes que "Utopia é um dos maiores jogos livres interativos online do mundo, com mais de 80 mil jogadores".

Eu não fiz uma pesquisa em todos os 4 milhões de sites listados, mas a impressão que tive após uma leitura de uma amostra aleatória é que o termo utopia aparece em marcas de empresas de cosméticos, de design de interiores, de lazer para feriados, bem como de decoração de casas. Todas as empresas fornecem serviços para pessoas que procuram satisfações individuais e escapes individuais para desconfortos sofridos individualmente.

"A ideia de progresso foi transferida da ideia de melhoria partilhada para a de sobrevivência do indivíduo"


CULT - Nesta sociedade líquido-moderna, como fica a ideia de progresso e de fluxos de tempo?

Bauman
- A ideia de progresso foi transferida da ideia de melhoria partilhada para a de sobrevivência do indivíduo. O progresso é pensado não mais a partir do contexto de um desejo de corrida para a frente, mas em conexão com o esforço desesperado para se manter na corrida. Você ouve atentamente as informações de que, neste ano, "o Brasil é o único local com sol no inverno", neste inverno, principalmente se você quiser evitar ser comparado às pessoas que tiveram a mesma ideia que você e foram para lá no inverno passado.

Ou você lê que deve jogar fora os ponchos que estiveram muito em voga no ano passado e que agora, se você os vestir, parecerá um camelo. Ou você aprende que usar coletes e camisetas deve "causar" na temporada, pois simplesmente ninguém os usa agora.

O truque é manter o ritmo com as ondas. Se não quiser afundar, mantenha-se surfando - e isso significa mudar o guarda-roupa, o mobiliário, o papel de parede, o olhar, os hábitos, em suma, você mesmo, quantas vezes puder. Eu não precisaria acrescentar, uma vez que isso deva ser óbvio, que essa ênfase em eliminar as coisas - abandonando-as, livrando-se delas -, mais que sua apropriação, ajusta-se bem à lógica de uma economia orientada para o consumidor. Ter pessoas que se fixem em roupas, computadores, móveis ou cosméticos de ontem seria desastroso para a economia, cuja principal preocupação, e cuja condição sine qua non de sobrevivência, é uma rápida aceleração de produtos comprados e vendidos, em que a rápida eliminação dos resíduos se tornou a vanguarda da indústria.

Entrevista concedida a Dennis de Oliveira, na Revista Cult.

19 de ago de 2009

Festival Voz e Violão

Com muito orgulho, apresento Priscilla Frade defendendo, com valentia, a nossa música "Gaveta de Guardados" no Festival Voz e Violão:

12 de ago de 2009

Flamengo

Uma pausa na gripe para dar espaço a dois tricolores:

1 - Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnico, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E, diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.
Nelson Rodrigues

2 - Ser Flamengo (leia o texto em silêncio ou deixe-se acompanhar pela interpretação de Milton Gonçalves, que está no vídeo)

Ser Flamengo é ser humano e ser inteiro e forte na capacidade de querer. É ter certezas, vontade, garra e disposição. É paixão com alegria, alma com fome de gol e vontade com definição.

É ser forte como o que é rubro e negro como o que é total. Forte e total, crescer em luta, peleja, ânimo, e decisão.

Ser Flamengo é deixar a tristeza para depois da batalha e nela entrar por inteiro, alma de herói, cabeça de gênio militar e coração incendiado de guerreiro. É pronunciar com emoção as palavras flama, gana, garra, sou mais eu, ardor, vou, vida, sangue, seiva, agora, encarar, no peito, fé, vontade. Insolação.

Ser Flamengo é morder com vigor o pão da melhor paixão; é respirar fundo e não temer; é ter coração em compasso de multidão.

Ser Flamengo é ousar, é contrariar norma, é enfrentar todas as formas de poder com arte, criatividade e malemolência. É saber o momento da contramão, de pular o muro, de driblar o otário e de ser forte por ficar do lado do mais fraco. É poder tanto quanto querer. É querer tanto como saber; é enfrentar trovões ou hinos de amor com o olhar firme da convicção.

Ser Flamengo é enganar o guarda, é roubar o beijo. É bailar sempre para distrair o poder e dobrar a injustiça. É ir em frente onde os outros param, é derrubar barreiras onde os prudentes medram, é jamais se arrepender, exceto do que não faz. É comungar a humildade com o rei interno de cada um.

É crer, é ser, é vibrar. É vencer. É correr para; jamais correr de. É seiva, é salva; é vastidão. É frente, é franco, é forte, é furacão. É flor que quebra o muro, mão que faz o trabalho, povo que faz país.
Artur da Távola

25 de jul de 2009

Retratos da Política Brasileira

Defendendo uma tese contrária à da diminuição da maioridade penal, o senador Eduardo Suplicy, em sua argumentação, vale-se da letra de uma música dos Racionais MC´s, para que a audiência entenda o ponto de vista da população marginalizada sobre sua própria condição.

Até aí, palmas para a nobreza humanitária do senador.

O problema é que, em vez de apenas citar ou declamar, o senador resolve dar vazão à sua veia artística e produz uma peça que daria inveja a seu filho, o rei dos clipes cômico-rídiculos, o dublê de roqueiro Supla.

Inaugurando esta nova seção do blogue, acompanhe o já famoso vídeo
:

18 de jul de 2009

"Contra Burguês, Baixe MP3"

Há pouco mais de dez dias, circula pela internet um movimento (enfim minimamente organizado) com a finalidade de "agir na flexibilização das leis da cadeia produtiva, para que estas não só assegurem nossos direitos de autor, mas também a difusão livre e democrática da música”.

A iniciativa, ao que tudo indica, tem ganhado destaque a partir da sua divulgação no blogue do compositor Leoni, de cuja música sinceramente não gosto (o que é algo irrelevante neste caso), e tem contaminado artistas de todo o país.

A partir desse debate, sugiu um grupo, o MPB (Música para Baixar), cujas ideias são descritas em seu manifesto, abaixo transcrito:

Manifesto movimento Música para Baixar

"É a partir do surgimento da democratização da comunicação pela rede cibernética, que a conjuntura na música muda completamente.

Um mundo acabou. Viva o mundo novo!

O que antes era um mercado definido por poucos agentes, detentores do monopólio dos veículos de comunicação, hoje se transformou numa fauna de diversidade cultural enorme, dando oportunidade e riqueza para a música nacional – não só do ponto de vista do artista e produtor(a), como também do usuário(a).

Neste sentido, formamos aqui o movimento Música para Baixar: reunião de artistas, produtores(as), ativistas da rede e usuários(as) da música em defesa da liberdade e da diversidade musical que circula livremente em todos os formatos e na Internet.

Quem baixa música não é pirata, é divulgador! Semeia gratuitamente projetos musicais.

Temos por finalidade debater e agir na flexibilização das leis da cadeia produtiva, para que estas não só assegurem nossos direitos de autor(a), mas também a difusão livre e democrática da música.

O MPB afirma que a prática do “jabá” nos veículos de comunicação é um dos principais responsáveis pela invisibilidade da grande maioria dos artistas. Por isso, defendemos a criminalização do “jabá” em nome da diversidade cultural.

O MPB irá resistir a qualquer atitude repressiva de controle da Internet e às ameaças contra as liberdades civis que impedem inovações. A rede é a única ferramenta disponível que realmente possibilita a democratização do acesso à comunicação e ao conhecimento, elementos indispensáveis à diversidade de pensamento.

Novos tempos necessitam de novos valores. Temas como economia solidária, flexibilização do direito autoral, software livre, cultura digital, comunicação comunitária e colaborativa são aspectos fundamentais para a criação de possibilidades de uma nova realidade a quem cria, produz e usa música.

O MPB irá promover debates e ações que permitam aos agentes desse processo, de uma forma mais ampla e participativa, tornarem-se criadores(as) e gestores(as) do futuro da música.

O futuro da música está em nossas mãos. Este é o manifesto do movimento Música Para Baixar."

A internet e as vendas

Há indícios indiscutíveis que contradizem inteiramente a teoria das gravadoras de que a música oferecida de graça diminui as vendas. No próprio blogue do Leoni, há um exemplo bastante claro envolvendo um dos artistas mais representativos da música mundial, o Moby (de cuja música também não gosto):

"Na verdade, existe cada vez mais evidência de que música gratuita não é nem mesmo uma substituta real para música paga.

Há alguns meses escrevemos sobre Corey Smith e sua experiência do verão passado. Smith oferece todas as suas canções de graça em seu site e, ainda assim, continua vendendo faixas no iTunes. A experiência consistiu em remover os downloads gratuitos do site e descobrir que as vendas no iTunes despencaram. Exatamente o oposto do que a indústria da música insiste em dizer que vai acontecer.

Parece que algo semelhante aconteceu com Moby. Em um e-mail para Bob Lefsetz ele ressalta que a música que ele vem dando em seu site é a que tem gerado mais vendas no iTunes:

Como vão as coisas?

O álbum acabou de sair e lideraria a parada européia se não fosse pelos relançamentos do Michael Jackson. Então, está indo bem.

Mas tem algo engraçado acontecendo: a faixa que mais tem vendido no iTunes é “Shot In The Back Of The Head”. Por que é engraçado?

Porque é a faixa que eu venho dando há dois meses e que eu ainda estou dando. Estranho. Como vai você?

Moby


É claro que deve ajudar o fato de Moby não tratar seus fãs como criminosos."

Na verdade, os músicos (ou musicistas, como preferem os mais puristas) descobriram que, com a intenet, não precisam ficar submissos às grandes gravadoras e aos jabás (na indústria da música, jabá é a prática de uma gravadora ou um grupo pagar dinheiro para a transmissão de músicas em uma rádio ou TV).

Enquanto isso, no Brasil...

Num show recente do Teatro Mágico, o Fernando Anitelli, líder do grupo, dono da frase que dá titulo a este artigo, afirmou categoricamente: jamais apareceremos no Faustão e nunca tocaremos com regularidade nas rádios, porque não daremos em hipótese alguma um centavo sequer para jabás. No entanto, seus shows são presenciados por milhares de pessoas, seus CDs são vendidos a preços baixos pelo site ou no próprio show e, mesmo assim, todas as músicas podem ser baixadas no site deles. E o grupo sobrevive muito bem, obrigado. Como? Veja uma matéria (um tanto exagerada, é verdade) do Jornal Hoje sobre eles:



Meu blogue de poemas ("As Outras Palavras") foi pensado também dessa forma. Mesmo com a grande possibilidade de ele virar livro ainda este ano, acredito firmemente que a disponibilização dos poemas na rede será um incentivo à compra do livro, e não o contrário.

Além disso, penso ser inalienável e fundamental o direito à cultura. Neste último mês, houve escolas públicas que desistiram de realizar suas festas juninas, importantes eventos de divulgação do nosso folclore, para não ter que pagar ao ECAD (Escritório de Arrecadação dos Direitos Autorais) um valor sobre as músicas executadas. Acompanhe um debate sobre essa questão aqui.
As grandes gravadoras vão sofrer é claro e, por isso, já começam a fazer suas pressões sobre o Congresso. O nefasto projeto de lei do senador Eduardo Azeredo prevê, no artigo 285-B, criminalização da ação de “obter ou transferir, sem autorização ou em desconformidade com autorização do legítimo titular da rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, protegidos por expressa restrição de acesso, dado ou informação neles disponível.”. A pena para esse crime seria de reclusão de um a três anos, além de multa. Trocando em miúdos, se aprovada, a lei não permitirá a livre circulação da informação pela internet.

As repercussões políticas

A discussão acima proposta tem relação direta com o exercício político que se vê no Brasil. O nosso brônzeo vate-estadista do bigodão engalanado, o Dr. José Sarney, tem afirmado, com certa insistência, que há uma "crise da democracia representativa no Brasil". Numa entrevista patética aos jornalistas Fernando Rodrigues e Valdo Cruz da Folha de São Paulo, no dia 16 de junho, ele afirma:

FOLHA - Como o sr. avalia a onda de escândalos envolvendo o Senado e o sr.?
JOSÉ SARNEY - A vida sempre me reservou desafios. A crise da democracia representativa está atingindo todos os Parlamentos no mundo inteiro.

FOLHA - Por culpa de quem?
SARNEY - A notícia em tempo real transformou o Parlamento, ele fica quase envelhecido. Em face disso há uma divergência de saber quem realmente representa o povo. É a mídia eletrônica, são as ONGs, é a sociedade civil ou os representantes eleitos? Esse é o grande problema que estamos vivendo.

A entrevista completa está aqui, já que a Folha só a disponibilizou de forma impressa ou para os assinantes do próprio jornal ou do UOL na internet.

À revista ISTOÉ afirma o nosso quase octogenário "nababo peemedebista de alma tucana convertido ao petismo", com toda a pompa de quem enverga um fardão farfalhante de imortal da ABL e com a ferocidade de quem carrega a peixeira simbólica dos grande coronéis deste Brasilzão para garantir que tudo continue exatamente como sempre foi:

"O Parlamento perdeu sua sacralidade. A instituição está ameaçada por mecanismos de democracia direta, até mesmo pela internet. Não se sabe o que fazer. O Congresso ficou mais vulnerável. É visto como uma repartição pública e os parlamentares como funcionários públicos.".

E ainda:

"Diante do seu esvaziamento, o Parlamento é alvo de desprestígio e de desinteresse. O que se reflete também na qualidade dos recursos humanos e na qualidade dos próprios parlamentares. Esta é a origem das distorções atuais.".

É brincadeira? "A instituição está ameaçada por mecanismos de democracia direta"? Não preciso analisar esse trecho e o que mais foi dito para que o leitor perceba o absurdo dessas considerações que, dentre outros objetivos, pretendem inverter as posições de acusador e de réu. Considerações que, na verdade, só revelam a senilidade de um homem que se enxerga como um monarca medieval.

Acompanhe, inclusive, este vídeo em que Sarney, mergulhado num lamaçal de denúncias e de críticas, utiliza argumentos falaciosos (principalmente os do tipo ad hominem) para reiterar, com a veemência de um artista, essas suas convicções como estratégia de defesa:



A internet assusta demais aos detentores do poder político e econômico. Se, no Brasil, perdemos a vocação para o enfrentamento corpo-a-corpo, que seja a internet o "megafone de nossas reivindicações" (certamente, o Sarney teria uma inveja danada dessa imagem-clichê).

Novos tempos exigem novos valores e novas estratégias.

A democracia precisa sim renascer, senador Sarney, e a proposta de difusão livre da música é um indício claro disso.

A democracia precisa sim renascer, senador Sarney, mas, para isso, é preciso enterrar sua vida política e de seus pares.

Para assinar o manifesto Música para Baixar, clique aqui.

Notas do articulista:
1 - Aos antipetistas de plantão cabe lembrar que Sarney presidiu o Senado - como aliado - de Fernando Henrique Cardoso e que Renan Calheiros, o rei dos bois e das cabras, foi Ministro da Justiça - como aliado - de Fernando Henrique Cardoso também. Vejam como é difícil se livrar deles, os "sagrados senadores do povo brasileiro".

2 - Meu livro já foi publicado: http://www.editoramultifoco.com.br/catalogo2.asp?lv=183

17 de jul de 2009

Hora do Recreio

Dois vídeos. O primeiro traz o áudio de um programa de rádio lá de Portugal em que o ouvinte é convidado a adivinhar o peso de um saco que está no estúdio. A ouvinte Anabela dá um show de percepção matemática! O segundo traz nosso queridíssimo Mussum numa performance impagável nos Trapalhões.



4 de jun de 2009

Ao mestre, com carinho

Numa perspectiva filosófica, pode-se entender o medo como uma perda da potência humana. Perda da potência de agir. Uma indisposição crônica para viver. Nesse ponto, é fácil perceber que se trata de um sentimento que em muito se assemelha ao de tristeza.

Só há tristeza, no entanto, quando estamos diante de algo que, de fato, existe ou existiu; de algo que concretamente se faz presente nas nossas vidas. Ficamos tristes, por exemplo, quando não obtemos sucesso num objetivo ou quando perdemos um parente.

O medo não: ele sempre está baseado em uma hipótese, coerente ou não. Diante de um ladrão que aponta um revólver para a cabeça de um filho, a mãe não se amedronta pelo que está diante dela, mas pelo que pode vir a acontecer com o desdobrar dessa situação.

O medo, portanto, depende de uma suposição, nunca de um caso concreto e, por isso, fomenta as mais diversas paranoias e irracionalidades.


O medo e a organização do poder

Por essa sua característica, o medo foi largamente empregado, no discurso político, como estratégia de poder ao longo da história. Hobbes já dizia que, em função dele, deveríamos abrir mão de certas liberdades que o “estado natural” poderia nos oferecer para que pudéssemos viver com mais segurança. Afinal, sem restrições às condutas, o medo do caos imperaria, e isso é algo com que o ser humano não saberia lidar. 

Aqui mesmo no Brasil, volta e meia podemos perceber a utilização do medo como mecanismo de sedução política. Além da clássica peça “Eu tenho medo do Lula”, da campanha de 2002, Regina Duarte tem esta inacreditável (e cômica) pérola falaciosa a favor de Fernando Henrique, nas eleições municipais de SP de 1985:
 

A cultura do medo nos EUA


Principalmente após os atentados de 11 de setembro, já se tornou clichê discutir a “cultura do medo” como alicerce do desenvolvimento econômico e imperialista americano. Todos sabem que foi esse modo de pensar e agir um dos grandes responsáveis pela perspectiva etnocêntrica, preconceituosa e belicista que os EUA assumiram ao longo da história.

Também não é novidade mencionar a necessidade americana de encontrar um inimigo externo (ingleses, nazistas, comunistas, muçulmanos) ou interno (índios, negros, homossexuais, judeus) para dar vazão a paranoias, neuroses e obsessões, que, veiculadas pela imprensa, aumentam os índices de audiência e de visibilidade dos comerciais e propagandas, o que gera consumo e movimenta a economia. É o famoso tripé medo - ansiedade - consumo, tão querido pelo Tio Sam.

Aliás, quem nunca apontou a ironia que reside no fato de a tão propagada “Terra da Liberdade” aceitar restrições violentas aos direitos individuais em nome da “democracia”? Sem dúvida, o medo é uma política do governo estadunidense.

Enquanto isso, em São Sebastião do Rio de Janeiro


Sim, meus caros, sabemos que os ianques têm problemas sérios. A questão que se nos impõe é que esse lado perverso da cultura americana tem chegado com passos largos ao nosso querido Rio de Janeiro, graças à atuação do nosso governador-dublê-de-xerife-de-filme-de-faroeste.

Percebam que assistimos, principalmente nos últimos anos, a um impressionante recrudescimento da “democratização do medo”, fenômeno que, dentre outros efeitos, faz com que nos sintamos todos, sem exceção, reféns da violência.


 
Não há dúvida: estamos todos apavorados.

Afinal, vemos, a toda hora na imprensa, favelas fortemente armadas e perigosas (embora não paremos para refletir que, se 1% da população da Rocinha fosse composta por marginais, essa cidade já estaria na mão dos bandidos).

Vemos aviões que não são seguros (por mais que saibamos que se trata de um dos meios de transporte com menor taxa de acidentes no mundo).

Vemos gripes terríveis que podem ser contraídas a qualquer momento (mesmo que ninguém jamais tenha visto alguém com seus sintomas).

Vemos tecnologias nucleares sendo desenvolvidas por líderes de países fundamentalistas (apesar de não termos nenhuma certeza sobre o uso que se fará delas).

Claro que temos medo.

O sofrimento das pessoas está estampado nas chamadas televisivas e radiofônicas, nas manchetes jornalísticas, nos blogues e portais da internet. O globonline anteontem, motivado pela tragédia ocorrida com o voo 447, chegou a cometer o disparate de fazer com seus leitores uma enquete para eleger “os dez piores acidentes da história da aviação”! O resultado, tenho certeza, será deprimente, mas certamente válido para os anunciantes desses espaços.

Absorver essa avalanche de informações sobre violência e perigos “iminentes” é inútil. Inútil porque, obviamente, só reforça o clima de obsessão reinante e difunde ainda mais o medo, e não as soluções para os problemas reais da sociedade. 
   
Certo que há alternativas. Elas, entretanto, não são simples. É preciso cultivar, por exemplo, um processo de leitura que garanta espaço para o debate e para a análise crítica de todas as matérias, criando-se, assim, um hábito salutar de seleção de fontes. 

No livro "Cultura do Medo", que inspirou o filme "Tiros em Columbine", de Michael Moore, seu autor, Barry Glassner, diz, por exemplo, que, numa determinada fase da história americana, houve um aumento de 600% na quantidade de notícias sobre violência, enquanto as taxas de criminalidade caíram 20%.


Aqui no Brasil não é diferente: cada vez mais chegam às telas versões de programas como “Brasil Urgente” e genéricos, que exploram o medo como aliado da audiência. 
Se absorvermos tudo isso sem reflexão, estamos fadados a uma neurose coletiva sem precedentes na história. 


As consequências da paranoia

Estamos nos tornando essencialmente medrosos. Temos medo do desconhecido, o que é natural, mas temos medo também de conhecer. Nas nossas escolas, nos meios de comunicação e até nas famílias, o que se vê é a propagação da intolerância: não aprendemos a conviver com as diferenças. 

Em pesquisa do Instituto Futuro Brasil, de 2003, 89% dos entrevistados consideraram prudente "ficar sempre com o pé atrás" em relação aos outros. Como o espectro da insegurança é muito amplo, acabamos por eleger elementos visíveis para encarnar nossas neuroses e, com isso, ficamos com medo do garoto de rua, do favelado, do suburbano ou do filho da faxineira.
 

De nada adianta, por exemplo, uma campanha, como a que houve há alguns anos a favor do desarmamento, se não desarmarmos primeiro nossos espíritos e entendermos que o diferente não é nosso inimigo.

Por causa do medo, elegemos segurança como prioridade 1 dos nossos governantes.

Por causa do medo, precisamos de condomínios bem protegidos, equipes de segurança, carros mais seguros, celulares com ampla conexão (para que não soframos imprevistos).

Por causa do medo, apoiamos a política de confronto armado em comunidades carentes, aceitamos caveirões e torturas como armas de trabalho policial, incentivamos a construção de muros para isolar favelas e aplaudimos a atitude do Capitão Nascimento no já célebre “Tropa de Elite”.

Por causa do medo, compramos cada vez mais armas, somos mais e mais intolerantes, somos coniventes com desrespeitos aos direitos humanos, aceitamos cercear nossas liberdades.

Por causa do medo, estamos deixando de ser cariocas; estamos perdendo nossas características essenciais: a alegria, a potência de agir, a disposição crônica para viver.


Cabral e Giuliani

Por isso, a notícia de que o ex-prefeito de Nova Iorque (sim, eu aportugueso tudo mesmo), Rudolf Giuliani, aquele que entrou para a história dos EUA com sua “Política de Tolerância Zero”, visita o Rio de Janeiro e troca ideias com o Sérgio Cabral deixa-me, para dizer o mínimo, estomagado.



Por lá, Giuliani “passou a vassoura” e aumentou vertiginosamente a população carcerária. Com isso, ele elevou o Estado Penal à condição de monumento da contemporaneidade: a criminalidade e, no caso deles, o terrorismo foram alçados à condição de principais inimigos da ordem internacional. Muitos países e estados resolveram, a partir daí, adotar o modo Giuliani de administrar e passaram a eleger a segurança como prioridade fundamental de seus projetos políticos.

A despeito dos possíveis benefícios que alguém possa citar numa estratégia esdrúxula como essa, ter um Estado que prioriza a política de segurança, e não a social, é algo lastimável. Lastimável porque, insisto, ataca-se o fim, e não o fato gerador do processo.

Mas o Sérgio Cabral? Ah, ele está seguindo direitinho os passos do mestre Giuliani. E o que vai sair desse conluio sórdido a gente já pode antever.

Já mestre Drummond, esse um verdadeiro mestre, com a sensibilidade de quem consegue captar o espírito de todo um povo, construiu o poema "Morte do Leiteiro", que, dentre outros aspectos, reflete sobre as consequências do medo na nossa forma de enxergar o mundo. Ouça-o a seguir, na voz do próprio autor.

Quero deixar claro: não se trata de defender bandidos, mas de defender algo que é fundamental para uma vida sã: o direito de não ter medos impostos pelos outros. Só os meus.

1 de mai de 2009

Hora do Recreio

O "Gato Fedorento" é um grupo de humoristas portugueses composto por José Diogo Quintela, Miguel Góis, Ricardo de Araújo Pereira e Tiago Dores.

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14 de jan de 2009

O mundo maquinal e a arte


Vivemos um momento tão complexo quanto delicado no desenvolvimento da nossa sociedade.

A lógica do mercado, a lógica da eficácia pela eficácia ajusta nossas vidas a modelos de agir, pensar e sentir que só denunciam a falência do modelo ocidental de civilização.

Acreditamos que é fundamental ter sucesso. E que sucesso é ter reconhecimento. E que reconhecimento é ter uma vida cada vez mais cheia – cheia de trabalho, cheia de obrigações, solicitações, papéis, computadores e decisões a executar; acreditamos que um homem bem-sucedido nunca pode ter tempo.

Acreditamos que muito da felicidade consiste em ter um bom emprego (e acreditamos que bom emprego é aquele que garante um bom dinheiro para pagar as contas em algum momento do fim do mês).

Acreditamos que segurança é mostrar serviço. E, por isso, temos que ser eficientes, rápidos, atentos e precisos; devemos estar sempre atualizados com as últimas novidades, com as últimas informações, com as últimas tecnologias, pois todo o nosso futuro, toda a nossa credibilidade pode depender disso. Há quem assine jornais e revistas, leia blogues especializados, ouça rádio, assista à televisão simplesmente para saber o que pensar sobre o mundo e sobre si mesmo. Mais ainda: há quem se algeme à grande mídia simplesmente para não enxergar o mundo de forma diferente da dos outros homens, por medo de ser excluído.

Que paradoxo: o homem ocidental sempre desejou ser livre, mas tem medo de romper com o sistema e, por isso, se fecha às possibilidades do mundo.

Acreditamos que são necessários corpos melhores e que corpos melhores não são necessariamente saudáveis, mas corpos mais bonitos e fortes. Queremos ser desejados, admirados, reverenciados como imagens sedutoras, como estátuas imortais de beleza. E para isso frequentamos academias em horários absurdos, fazemos dietas incompreensíveis, cobiçamos pessoas de quem jamais ouvimos um só pensamento autônomo e construtivo.

Parece que o homem, por não entender o que significa ser homem, deseja ser uma espécie de super-homem. Não o do Nietzsche ou o dos quadrinhos, mas aquele que se define por querer ser tudo ao mesmo tempo, sempre da forma mais eficiente possível. O espelho do homem não é mais outro homem e sim a máquina, símbolo de perfeição, eficiência e produtividade, símbolo que o homem sonhou e que o fez sonhar com uma realidade sem defeitos. Fazer poesia, desenhar, musicar, esculpir, dançar ou mesmo refletir soam como atividades improdutivas, coisa de fraco, bobo, louco ou desocupado.

O homem de hoje não se entrega à sua sensibilidade. Ou ainda, o homem de hoje é incapaz de reconhecer a grandeza de sua sensibilidade, das suas emoções: falta tempo pra isso. Ele busca a felicidade, mas não sabe onde encontrá-la, porque ele nunca pensou por si próprio; ele sonha com um grande amor, mas não tem idéia de como vivê-lo, porque sequer se conhece, porque aplica às emoções a lógica do mercado. Quantas e quantas pessoas estão por aí hoje "se curtindo", sem nenhuma pretensão de crescer com esse tipo de relacionamento? Quantas e quantas pessoas se metem em namoros e casamentos porque seus pares são "legais"?

Mas chega um momento
em que (sem heroísmos ou egoísmos)
é preciso inventar um pequeno barco no ar

(ou um outro sonho qualquer
que nos arranque o chão dos pés).

Chega um momento
em que não se pode aguardar o vento,
em que temos que nos arremessar ao mar.

Porque é urgente salvar o amor.

Chega um momento em que é urgente amar.

Por isso, é tão importante valorizar o artista.

Eles sim merecem ser admirados e reverenciados. E merecem ser admirados e reverenciados porque transgridem os limites dessa realidade maquinal. Dedicam-se a produzir trabalhos que não vão torná-los mais ricos ou mais fortes, mas que vão lembrar a todos nós que ainda “somos carne, osso, alma e sentimento, tudo isso ao mesmo tempo”. Trabalhos que falam sobre sonhos, fantasias, medos, paixões e covardias e que, por isso, vão lembrar a todos nós que o ser humano precisa sim ter imperfeições, porque só sabemos o que é a felicidade porque existe a tristeza; só sabemos o que é a beleza, porque existe a feiúra; porque sabemos que toda ousadia precisa conviver de perto com o pudor. Trabalhos que vão nos lembrar que, às vezes, é preciso “levar a vida mais devagar, pra não faltar amor”.

O ser humano precisa urgentemente da arte. Precisa porque a arte faz pensar. Ouvir uma boa música, ler um bom livro, apreciar uma tela não são perda de tempo. Pelo contrário, são atividades que certamente vão desenvolver nosso potencial reflexivo, crítico e criativo e que, por isso, vão permitir uma melhor absorção dessa avalanche de informações, símbolos e imagens a que estamos submetidos todos os dias.

O ser humano precisa da arte porque nesse mundo tão individualista é bom sabermos que não estamos sozinhos nas nossas angústias e nas nossas alegrias; que um outro ser humano de outra realidade histórica é capaz de sentir exatamente o que nós estamos sentindo; porque, afinal de contas, a arte tem essa incrível capacidade de nos entender e de nos descobrir. Sem fazer muitas perguntas.

(por Filipe C.)
Os vídeos a seguir complementam essa reflexão e a expandem. Assistam a eles!

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