25 de mar de 2014

20 livros fundamentais

Algumas pessoas me perguntam, com certa frequência, que livros eu indicaria para quem quiser ler o básico para uma formação cultural consistente.

Não há gabarito pra uma coisa dessas. Uma seleção é sempre injusta e passível de inúmeras críticas. 

(Há até quem defenda, por exemplo, a convocação do Hernane para Seleção Brasileira, vejam vocês.)

Ainda assim, aventuro-me, deixando claro que se trata de uma seleção feita por um ser humano com certa tendência crônica ao lirismo e ao pensamento socialmente progressista.

1) A Divina Comédia, de Dante Alighieri.
É o melhor livro já escrito; uma união perfeita de técnica, repertório cultural e reflexividade. 
Recomendo edições bilíngues, que associem os versos em italiano à prosa em português. Em geral, ao tentar imitar o estilo poético de Dante, as traduções se perdem desgraçadamente.

2) (El ingenioso hidalgo) Don Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes y Saavedra.
É o pai dos romances modernos e do pensamento humanístico que vale a pena perpetuar. Precisa de mais alguma coisa?

3) Hamlet, de William Shakespeare.
Psicologicamente e estruturalmente genial. Sinceramente, não sei se há algo que seja necessário saber sobre o ser humano que não esteja ali.

4) Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões.
Dez cantos, 1102 estrofes em oitavas decassílabas (em maioria heroicas), sujeitas ao esquema rímico fixo AB AB AB CC (oitava rima camoniana), contando a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, à volta da qual se vão descrevendo outros episódios da história gloriosa do povo português. É mole?

5) Mensagem, de Fernando Pessoa.
Das coisas mais lindas que já li. Pessoa dialoga com Camões e propõe uma releitura do (nosso) sebastianismo.

6) O Som e a Fúria, de William Faulkner.
De deixar o queixo caído pela construção psicológica dos personagens, das obsessões humanas.

7) Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Joaquim Maria de Machado de Assis.
Em termos de estilo, é o que há de melhor em língua portuguesa. Em particular, sou mais fã de Memorial de Aires, último romance de Machado, tristíssimo e belíssimo: uma coisa monumentalmente bem escrita. Mas as Memórias Póstumas são mais palatáveis. É o que sempre digo: quer aprender a escrever? Leia Machado.

8) Os Sertões, de Euclides da Cunha.
Determinismos e preconceitos à parte, é um dramático relato das nossas desigualdades. Há quem diga, inclusive, que, pelos contornos épicos, é melhor que Guerra e Paz, de Leo Tolstoy, tese com a qual humildemente concordo.

9) Crime e Castigo, de Fyodor Dostoyevsky.
Livro essencial para que se compreenda que é impossível viver sem piedade. Para os justiceiros de hoje, teria que ser obrigatório.

10) Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
"O diabo na rua, no meio do redemunho."

11) Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Clarice Lispector.
Ninguém sabe ao certo o que é amor até ler esse livro.

12) Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
Brasil em carne viva.

13) O povo brasileiro – a formação e o sentido do Brasil, de Darcy Ribeiro.
Talvez seja o maior pensador social que o Brasil já teve.

14) Apologia, de Sócrates.
Liberdade de pensar por si mesmo.

15) Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, de Jean-Jacques Rousseau.
Para aprendermos as nossas limitações e nossos potenciais.

16) Sermões (obra completa), do Padre Antonio Viera.
Ninguém argumenta tão bem e tão liricamente quanto ele. Se Fernando Pessoa disse que Vieira é o imperador da língua portuguesa, quem sou eu pra discordar?

17) Cien Años de Soledad, de Gabriel García Márquez.
A América Latina é imensa e belíssima.

18) Veinte poemas de amor y una canción desesperada, de Pablo Neruda.
Viva o Chile! 
(Escolher um livro do Neruda é complicadíssimo.)

19) Obra completa, de Carlos Drummond de Andrade.
Porque é Drummond. Não dá pra escolher um. Desculpem-me.

20) Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Afonso Henriques de Lima Barreto.
Porque Lima Barreto merece todas as honrarias que leitores do mundo inteiro puderem prestar. Imenso.

6 de fev de 2014

"O VELHO É DONO DO TEMPO, NÃO PÁRA NUNCA DE ANDAR"

No debate sobre a violência que, por motivos óbvios, instaurou-se esta semana, perguntaram-me se eu tenho alguma solução imediata ou mágica para essa questão.

Não, não tenho. 

Seria investimento em Educação a saída? Não sei... A que temos hoje não prepara, em geral, para isso: pessoas com acesso a altíssimo grau de instrução também operam crimes graves. Exemplifico e explico. 

O crime cometido por um pivete é grave, como também é grave a sonegação de impostos ou o suborno a agentes públicos, por exemplo. É que no primeiro caso, o do pivete, rouba-se algo; no segundo, deixa-se de dar algo ou ganha-se algo, indevidamente. 

A percepção do crime torna-se diferente: um é contra o indivíduo, outro contra a coletividade.

Eis aí "O" problemaço: a Educação de hoje, em geral, prepara o indivíduo para suprir necessidades subjetivas, não coletivas. É um tal de "meu pirão primeiro" que não acaba mais. O furto do pivete torna-se algo hediondo, mais grave que o desvio de merenda escolar, na percepção da vítima.

Então, seria investimento em Segurança a solução? A resposta também parece ser negativa. Em todas as áreas da cidade, mesmo naquelas em que o policiamento ostensivo é mais forte, ocorrem crimes. Em qualquer lugar do mundo, aliás, existem crimes, ainda que a Polícia atue fortemente. Há uma melhora considerável nos índices de criminalidade, quando a política de segurança incorpora elementos de cidadania, fazendo com que todas as pessoas tenham acesso a serviços que o dinheiro compra para os mais ricos.

Por isso, creio que só pode haver melhora, se houver uma mudança de visão de mundo, em que o coletivo se sobreponha ao individual, em que o culto ao "Deus Mercado" e a apologia da imagem e da cultura "vip"/aristocrática/nobiliárquica/hierárquica deixem de existir. 

A vida em sociedade, sem barbárie, só pode ser atingida assim: sem essa ideia perversa de que somos felizes se enriquecemos, seja como for; sem essa noção de que o simples é pouco e de que o certo é não ter tempo para nada; sem a obrigação de perambular como zumbi num ciclo vital que incorpora apenas casa-trabalho-casa; sem a ambição desmedida que acaba com a humanidade e com os recursos do planeta; sem a benevolência para os senhores e a fogueira para os vassalos, que se traduz em sensação de injustiça e de impunidade.

A maneira como abraçamos esses padrões comportamentais torna inviável a civilização. Por quê?, alguém me perguntará. Porque nosso estado é de guerra constante: contra o concorrente, contra o tempo, contra a simplicidade, contra quem pensa diferente.

E a guerra é o fracasso da humanidade. Por não acreditar na guerra, acredito na política, em amplo sentido: em negociações, em planejamentos, em objetivos, em cidadania, em divulgação cultural. 

Para isso, no entanto, é preciso tempo e vontade; é preciso um renascimento da própria consciência humana. Nada mágico ou imediato, portanto.

Minha percepção sobre essas questões em nada afeta a minha visão de que o rapaz-tema-da-semana, ainda que pobre, ainda que sem oportunidades, deve ser punido, sim. Mas nos termos da lei. Não façamos mais concessões ao estado de guerra que o mundo de hoje já nos impõe. 

E que isso não mascare que estamos tratando apenas as consequências, e não as causas do problema.

E que lutemos mais para viver numa sociedade em que as pessoas pensem segundo um novo modelo, como eu disse acima. Um novo modelo que nos aproxime, de nós mesmos e dos outros, tornando-nos mais reflexivos e participativos e transformando o "cidadão de bem" no "cidadão do bem comum".

Os passos são lentos, como os do velho citado no título deste texto. Mas, se contínuos, dominam o tempo e trazem a sabedoria do caminho percorrido. 

Aliás, esse título é trecho de uma música do grande Paulo César Pinheiro, gravada por Dona Glória Bonfim: "O mais velho". 

Sei que poucos conhecerão a referência; por isso, fica a sugestão: será que você tem tempo hoje pra ouvi-la e conhecer mais da arte e da beleza no mundo - humano - que nos cerca? ;-))


http://www.radio.uol.com.br/#/letras-e-musicas/gloria-bomfim/o-mais-velho/2502405

Beijos e abraços

20 de jan de 2014

O meu Rio não é só um lugar

O meu Rio de Janeiro comporta e amansa muitos clichês. 

É a terra entre o mar e a montanha, onde mora o sol que arromba, alumbra e desperta a vista de quem o vê. 

Mas o meu Rio não é só um lugar. É um modo especial de enxergar a vida. Nascer no Rio é circunstancial; ser do Rio é um estado de espírito. 

Ser carioca não é gostar de praia, embora lá possamos encontrar a metonímia de tudo aquilo que belamente representamos. Existem cariocas que gostam de calor, e os que não gostam; os de corpos sarados e os sedentários; os do samba e os do rock. Não é isso que nos define. 

Somos é profundamente emotivos, impulsivos. A carioquice está no abraçar, dar dois beijos e mexer no cabelo de quem nunca se viu antes na vida. Depois desse ritual de encontro, sabemos: se a pessoa abriu um sorriso, já nos conquistou e merece ser tratada, não pelo nome, mas por um diminutivo carinhoso, nossa maneira de dizer: "Você é dos nossos...!" 

E queremos ser livres. Chinelo é nossa roupa de gala. E não temos medo algum de marcar compromissos e desrespeitá-los. Quando dizemos para alguém querido "Vamos marcar alguma coisa?", estamos, na verdade, dizendo: "Eu gosto demais de você... Tomara que a gente se esbarre com tempo em outra ocasião". 

Acusam-nos de conformistas e indolentes. Nada disso. A festa é a nossa maneira de reivindicar, de revolucionar. Somos debochados. Botamos pilha. Zoamos. É a nossa manifestação sociológica mais apaixonante. Há quem, de fora, também interprete isso como rudeza; pelo contrário, é nossa forma de dizer para o mundo: não queremos brigar. Nossas provocações são manifestações de paz. Porque queremos paz. 

Na nossa essência, não há classes ou cores. Nas praias e nos estádios, estamos todos juntos. Por isso, para um carioca de verdade, dói tanto ver quem queira fechar espaços privados (ou oferecê-los para um público selecionado) e causa indignação ver o subúrbio maltratado ou o pobre discriminado. Isso é o anticarioquismo em toda sua força. 

No Rio, ninguém se diverte sozinho. Por isso, enchemos as ruas em diversas ocasiões. Não importa se é Carnaval, se disseram que se trata de uma manifestação política, se estamos em redes sociais: precisamos uns dos outros. A conversa à toa, às vezes, parece-me invenção nossa. Gostamos de estar juntos. 

A cultura popular é a nossa cultura. Rica e plural. Oferecemos flores à Iemanjá, acreditamos em reencarnação, casamos na Igreja. É-nos inconcebível a intolerância religiosa ou sexual. 

Hoje é dia de São Sebastião; é dia de Oxóssi. Que suas flechas, meu pai, nos protejam de todos aqueles que nos querem fazer perder nossa verdadeira essência, tornando-nos uma "filial de Ibiza" ou uma terra de apartheid, impondo-nos um vira-latismo sem sentido. Não somos perfeitos. Mas somos o Rio. O mundo que copie nosso jeito de ser. 

E sim: somos marrentos merrrrrmo.

(por Filipe Couto)

18 de out de 2013

Vinicius - meu poeta, meu amor

Tenho alguns ídolos na vida. Pessoas cuja contribuição humanística ultrapassa o utilitarismo de um invento ou a perfeição maquinal. Meus ídolos são gente de verdade, com qualidades e defeitos. 

Sou, por exemplo, fã incondicional de Vinicius de Moraes, que neste 19 de outubro completa(ria) cem anos. 

Viveu como poeta, e transformou em beleza (músicas, peças, poemas, contos, crônicas) tantas e tantas dores da vida. A mim, ele me ensinou muito. 

Ensinou-me que ser imortal é diferente de ser infinito; e ensinou-me que fidelidade não se cobra: conquista-se, cuida-se, admira-se. 

Ensinou-me que amores podem ser estranhos, desassombrados, doidos, delirantes; mas também que a vida só se dá pra quem se deu (pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu). 

Ensinou-me que o homem que diz 'vou' não vai; e que quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém. 

Mas Vinicius me falou muito mais. Ele também ajudou a construir as minhas primeiras impressões ideológicas, sociais e políticas. Lembro-me do assombro que me tomou quando, ainda moleque, li um trecho de seu Operário em Construção, que ainda hoje trago no peito: 

"Mas o que via o operário o patrão nunca veria. O operário via as casas e dentro das estruturas via coisas, objetos, produtos, manufaturas. Via tudo o que fazia o lucro do seu patrão. E em cada coisa que via misteriosamente havia a marca de sua mão. E o operário disse: Não! - Loucura! - gritou o patrão, não vês o que te dou eu? - Mentira! - disse o operário, não podes dar-me o que é meu". 

Meu poeta maior também me fez pensar na brasilidade que carrego, me fez ter orgulho dela. Aprendi com ele que só se é livre quando se liberta, e que se há alguém oprimido, estamos todos oprimidos: 

"Mais do que a mais garrida a minha pátria tem uma quentura, um querer bem, um bem, um 'libertas quae sera tamen' que um dia traduzi num exame escrito: "Liberta que serás também". E repito!" 

Vinicius, o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô, homem sem medo de assumir sua africanidade, ainda que vivêssemos (vivêssemos?) num mundo tão intolerante em relação às crenças e não crenças. Homem que, com Baden Powell, produziu uma das obras mais lindas já concebidas pelo gênio humano: os afro-sambas. 

Homem que talvez não tivesse espaço neste mundo corpólatra das dietas e das academias, neste mundo da utilidade e do interesse, neste mundo do politicamente correto e dos julgamentos prévios, neste mundo tão mudo, mesmo com tanta coisa sendo dita todo dia. 

"São demais os perigos dessa vida/ para quem tem paixão, principalmente / quando uma lua surge de repente/ e se deixa no céu, como esquecida." 

Essa lua me pegou, poetinha. E que a vida continue perigosa sempre, como você ensinou que deve ser. 

Saravá!

14 de out de 2013

Pelo Dia dos Mestres

Definitivamente, não é fácil ser professor.

Ao entrar em sala, a quase totalidade dos alunos não quer saber se você teve uma noite difícil, se alguém na sua família está doente, se você perdeu um parente, se aquela dívida já está batendo à porta, se o trabalho fora de sala (sim, ele existe e ocupa a maior parte do tempo de um bom professor) exigiu mais que o costumeiro, se seu casamento passa por uma fase complicada.

O educador - crê-se - está lá pra fazer com que todos aprendam os tópicos planejados, da melhor maneira possível. Sorrindo. E, mesmo dando o máximo de si, vai haver os que não conseguirão perceber esse esforço e que dirão vez ou outra: "Ih, ele está estressado... A mulher dele deve ter dormido de calça jeans esta noite..." ou "A aula hoje não tá engraçada... Ele não é mais o mesmo..."

Estar exposto ao julgamento de centenas pessoas toda semana é muito difícil. Basta uma frase descontextualizada para que se teçam considerações sobre seu caráter, sobre sua personalidade. Há muitas injustiças a que sequer podemos responder, porque as desconhecemos.

Mas, então, vale a pena ser professor? Claro que vale. A despeito de todos os obstáculos, não há sensação melhor, para mim, do que poder fazer alguém sair transformado de uma aula. Sempre é possível fazer alguém rir ou chorar, entendendo melhor a si mesmo e ao mundo; é possível fazer alguém ganhar mais consciência social e crítica; é possível fazer alguém saber ler melhor, escrever melhor. Sempre é possível fazer com que pessoas cheguem mais perto dos seus sonhos, preparadas para enfrentar o mundo do jeito que ele é. Sempre é possível mostrar o que pode (e deve) ser conservado e o que pode ser transformado na nossa sociedade. Por isso, cada aluno é fundamental para todo professor.

Num dos meus primeiros anos de magistério, uma aluna do primeiro ano do ensino médio me perguntou: "Professor, você trabalha em quê?"

Achei muita graça na pergunta, brinquei, mas ela me fez pensar bastante. Afinal, qual meu trabalho como professor? Ao final da aula, respondi a ela algo como: "Trabalho em fazer com que as pessoas sejam mais responsáveis consigo mesmas e com os outros, com que estejam preparadas para o mundo, com que sejam livres para pensar."

E, por isso, tantas e tantas vezes fico triste quando uma aula acaba. Por mim, falaria mais, debateria mais, daria novos pontos de vista, contaria tudo que já aprendi. Felicidade também é isto: não querer que um momento acabe.

Agradeço a meus professores e a meus colegas de profissão por terem moldado meu caráter, por terem me ensinado como aprender, por me mostrarem a importância da curiosidade e do respeito.

Agradeço a todos os meus (ex-)alunos (já disse aqui que professor não é ser transitório na vida de ninguém: uma vez professor, sempre professor) por me darem a oportunidade de fazer aquilo que me dá mais prazer na vida.

Feliz Dia dos Mestres.

31 de jan de 2013

Lula num táxi de NY

Venci minha (hipócrita, confesso) rejeição à cultura ianque e fui visitar a terra do Tio Sam.

Desde sempre, acho um absurdo ter que pedir um visto para a entrada num país. Uma humilhação desnecessária. Mas passei a entender melhor as necessidades de segurança e a ter pena da paranoia deles. Ouvi de muitos amigos que Nova Iorque não é bem Estados Unidos (era o próprio mundo!) e passei a gostar da ideia de entender como é a vida dessas pessoas na prática.

Evidente que a vida de turista não permite muita coisa. Fui atacado, nos primeiros dias, por uma indesejável vontade de fazer tudo ao mesmo tempo. Quando percebi a besteira, desacelerei e fui em busca de experiências que pudessem ser realmente memoráveis.

E foram muitas.

Uma delas em particular eu gostaria de compartilhar com os senhores.

À saída de um bar de jazz na Christopher St, The 55s, peguei um táxi. Estava sozinho, era tarde e não conhecia ainda a beleza das facilidades que o metrô novaiorquino oferece.

Pedi ao motorista que me levasse ao meu hotel, que não ficava muito longe dali. Pela minha precária pronúncia, ele reconheceu que eu não era seu conterrâneo e perguntou de onde eu vinha:

- Do Brasil, respondi em relaxado inglês, estou aqui de férias.

- Tenho muita vontade de conhecer o Brasil, o Rio de Janeiro, disse-me ele.

E respondi que eu era de lá mesmo, que a terra dele era bonita, mas que a minha era muito mais. Emendei dizendo que muita gente nossa acaba querendo ser igual aos americanos em tudo, mas que a nossa essência de festa e de alegria não se perdia, ainda assim.

- Nunca vi um brasileiro que não fosse feliz. Quero dizer, toda gente deve ser triste em algum momento, mas vocês sabem olhar o lado bom de tudo.

Concordei e me veio a pergunta assombrosa:

- Como anda a economia do Brasil?

Sempre aprendi que os americanos são uns alienados em geopolítica, daí minha estranheza. Sem saber direito como usar a sintaxe correta, esforcei-me para dizer:

- Muito melhor do que já foi um dia. Em dez anos, tiramos mais de trinta milhões de pessoas da miséria, nunca tivemos tantos jovens nas escolas e nas universidades, distribuímos renda a quem precisa e nosso desemprego é de menos de 5%.

- E a corrupção? Ele perguntou.

- Problema de todos os países, não? No Brasil, durante muito tempo houve mais impunidade; hoje o governo incentiva as denúncias sérias, mas sofre com os boatos.

- O Brasil, então, é diferente da Venezuela?

- De certa forma, sim, respondi. Mas é difícil julgar. As elites dominavam as informações, e os venezuelanos são menos pobres com Chavez.

- Chavez aqui é o próprio "diablo", disse-me ele.

- Uma pena, respondi.

Depois de um breve silêncio, ele arremata:

- Vocês tiveram um grande presidente. Lula. Um homem sério, um homem bom. Ele viu o que ninguém conseguia ver.

- E a imprensa bate muito nele, sabia?

- Mas a imprensa faz isso aqui também. O Obama teve dificuldade pra fazer um pouco do que vocês têm lá: saúde pra todos. Sei que vocês têm problemas com isso, mas é algo que ninguém aqui sonhava. Aqui se fala muito sobre ser "maker" ou "taker". Os necessitados ("takers") são uma maldição pra algumas pessoas. Obama não consegue fazer nada do que gostaria porque os americanos não entendem. Lula conseguiu, e isso deve mostrar um pouco de como vocês são. Ele é "o cara", né? Vocês também devem ser!

Eu concordei com um sorriso largo.

- Pode dizer a todo mundo lá: eu queria que meu presidente fosse o Lula.

Sonjay, meu amigo taxista, seu recado está dado.

4 de jan de 2011

Felicidade, voz e cultura

Uma das reflexões filosóficas mais antigas e mais importantes da civilização ocidental é a que pondera sobre qual seria a melhor forma de viver.

Já em A República, Platão explicava que, ao ser inquirido por um interlocutor sobre essa questão, Sócrates dizia ser impossível a ele determinar um conjunto de ações que conduzissem um outro homem a um estado de felicidade. O filósofo só concebia positividade na vida, se ela fosse livremente determinada pelo próprio indivíduo, e não por outro. Isso não significa, entretanto, que seja a liberdade a chave para a felicidade, pois se só tivéssemos como opção sermos livres, estaríamos contradizendo a premissa inicial. Não é, portanto, a liberdade em si a razão da felicidade, mas a livre determinação da vida.

Diante de uma instância coercitiva - seja "positiva", seja "negativa" - o homem não é pleno de si mesmo. Não é feliz, por esse raciocínio, o faminto que pensa em roubar um pão, mas não o faz, antes por temer ser flagrado que por acreditar que assim a vida em comunidade será melhor para ele e para todos.


Desenvolvendo esse tópico em seu célebre Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, Jean-Jaques Rousseau imprime novas tintas à discussão e tece uma das mais seguras reflexões sobre a origem do desconforto humano consigo mesmo. Explica o mestre que, dentre todos os seres vivos, o homem é o único que não se satisfaz com sua própria natureza.

"Não vejo em todo animal senão uma máquina engenhosa, à qual a natureza deu sentidos para prover-se ela mesma, e para se preservar, até certo ponto, de tudo o que tende a destruí-la ou perturbá-la. Percebo precisamente as mesmas coisas na máquina humana, com a diferença de que só a natureza faz tudo nas operações do animal, ao passo que o homem concorre para as suas na qualidade de agente livre. Um escolhe ou rejeita por instinto, o outro por um ato de liberdade, o que faz com que o animal não possa afastar-se da regra que lhe é prescrita, mesmo quando lhe fosse vantajoso fazê-lo, e que o homem dela se afaste freqüentemente em seu prejuízo. É assim que um pombo morre de fome perto de uma vasilha cheia das melhores carnes, e um gato sobre uma porção de frutas ou de grãos, embora ambos pudessem nutrir-se com os alimentos que desdenham, se procurassem experimentá-lo; é assim que os homens dissolutos se entregam a excessos que lhes ocasionam a febre e a morte, porque o espírito deprava os sentidos, e a vontade fala ainda quando a natureza se cala."

Com o objetivo de sustentar indutivamente seu raciocínio, Rousseau cita o pombo e o gato - como metonímias de todos os animais - para esclarecer que, em toda a natureza, o instinto basta para que o vivente fique em paz consigo mesmo. Um gato jamais precisará de outra faculdade, a não ser aquelas que instintivamente já possui, para exercer plenamente a sua vida felina. Mais: um gato não busca nada além daquilo que já está presente em sua própria natureza para viver, para se relacionar com o mundo.

O homem, de outra forma, embora também seja dotado de instintos humanos, transcende-os para satisfazer as suas necessidades existenciais. É o “ato de liberdade”, citado pelo filósofo, que faz um homem, muitas vezes, rejeitar algo que, por natureza, ser-lhe-ia útil e, outras vezes, desejar algo que nada lhe acrescentaria na prática.

"Todo animal tem idéias, pois tem sentidos; combina mesmo as idéias até certo ponto: e, sob esse aspecto, o homem só difere do animal do mais ao menos; alguns filósofos chegaram a avançar que há mais diferença entre um homem e outro do que entre um homem e um animal. Não é, pois, tanto o entendimento que estabelece entre os animais a distinção específica do homem como sua qualidade de agente livre. A natureza manda em todo animal, e a besta obedece. O homem experimenta a mesma impressão, mas se reconhece livre de aquiescer ou de resistir; e é sobretudo na consciência dessa liberdade que se mostra a espiritualidade de sua alma; porque a física explica de certa maneira o mecanismo dos sentidos e a formação das idéias; mas, no poder de querer, ou melhor, de escolher, e no sentimento desse poder, só se encontram atos puramente espirituais, dos quais nada se pode explicar pelas leis da mecânica."

Clara razão para esse comportamento - exclusivamente humano, segundo Rousseau - seria o evento histórico da comunicação, a partir da vida em comunidade. Isso teria incutido em nossos espíritos a ideia de perfectabilidade, de necessário aperfeiçoamento, o que, paradoxalmente, teria originado determinados vícios morais, como a inveja e a vaidade, característicos da vida em sociedade.

"Adquire-se o hábito de se reunir diante das cabanas ou em torno de uma grande árvore: o canto e a dança, verdadeiros filhos do amor e da ociosidade, tornam-se divertimento, ou antes, ocupação dos homens e das mulheres ociosos e agrupados. Cada um começa a olhar os outros e a querer ser olhado por sua vez, e a estima pública tem um preço. Aquele que canta ou dança melhor, o mais belo, o mais forte, o mais destro ou o mais eloqüente, torna-se o mais considerado. E foi esse o primeiro passo para a desigualdade e para o vício, ao mesmo tempo: dessas primeiras preferências nasceram, de um lado, a vaidade e o desprezo e, de outro, a vergonha e a inveja; e a fermentação causada por esses novos fermentos produziu, enfim, compostos funestos à felicidade e à inocência."

O homem, portanto, ao trocar experiências com outros homens, desperta o que há de melhor e o que há de pior em sua própria essência. Diante disso, como seria viável uma vida em comunidade que pudesse nos levar a ser, simultaneamente, produtivos, seguros e felizes?

Se é verdade que a livre determinação da vida é elemento desejável no perfil de um homem ideal, também é verdade que a vida em comunidade permitiu que houvesse trocas de conhecimento e de experiências, a fim de que determinados erros cometidos por uma geração não precisem ser repetidos pela próxima, a fim de que determinados acertos possam ser perpetuados.

Embora haja visíveis exceções, é possível reconhecermos alguns traços psicológicos e comportamentais que são passados - ora de forma mais enfática, ora de forma mais tênue - de geração a geração, como forma de garantir uma vida harmônica. Esses traços, que podemos chamar de ética ou de moral, compõem a tradição de uma determinada comunidade. São suas raízes, suas referências, seu jeito de ser, que pode ser ponderado, mas jamais esquecido. O conhecimento da própria história torna-se algo fundamental para uma vida feliz, seja para negar certos valores, seja para confirmá-los.

O que se vê, no entanto, nos dias de hoje, é o desejo compulsivo pelo consumo de fórmulas de felicidade. Livros de auto-ajuda oferecem, em lições condensadas, as receitas para o sucesso profissional ou para a realização amorosa; as tevês anunciam produtos que garantem a satisfação pessoal e exibem corpos que devem ser copiados, para que sejam cobiçados; a indústria farmacêutica vende, como nunca, remédios contra a depressão e a ansiedade: lembremos que o Rivotril é o segundo medicamento mais consumido no país.


Millôr Fernandes, num de seus famosos aforismos, diz: "Parece mesmo que a maior aspiração do povo é a liberdade de se deixar mandar". De fato, o filme A vida de Brian, do grupo inglês Monty Python, traz um exemplo claro disso. Brian é confundido com o messias e intimado pela multidão de fiéis a ensinar-lhes a "verdade". Ele diz, então, ao povo: “Vocês precisam pensar por si mesmos. Vocês são todos indivíduos!”, ao que a multidão responde em coro: “Sim, somos todos indivíduos”. Em seguida, Brian insiste “Vocês são todos diferentes!” e, mais uma vez, em coro, a multidão replica: “Sim, somos todos diferentes!”. Veja a cena do "Paradoxo de Brian", em inglês:


Diz-nos Sérgio Buarque de Hollanda, em seu aclamado Raízes do Brasil, que, muitas vezes, sentimo-nos “desterrados em nossa própria terra”. Talvez por imposição das influências coloniais, nosso percurso histórico, segundo o ensaísta, evidenciaria a falta de elementos que nos identificassem, nos aclarassem, nos definissem frente a nós mesmos como membros de uma mesma comunidade. Manuel Bandeira, numa crônica intitulada “Mário de Andrade”, dá a exata medida desse complexo processo:

"Negras e cidades no Brasil são temas exóticos. Mesmo nos brasileiros. Uma coisa cacête nas nossas tentativas de assuntos nacionais é que os tratamos como se fôssemos estrangeiros: não são exóticos para nós e nós os exotizamos. Falamos de certas coisas brasileiras como se as estivéssemos vendo pela primeira vez, de sorte que, em vez de exprimirmos o que há nelas de mais profundo, isto é, de mais cotidiano, ficamos nas exterioridades puramente sensuais."

Em outra crônica, “Poesia do Sertão”, Bandeira cita o mesmo problema, criticando a produção literária nacional, que tentava aproveitar o folclore:

"A qualidade mais preciosa da arte popular é a ingenuidade e no entanto tôda essa nossa poesia de inspiração nacional carece de ingenuidade"

A falta de ingenuidade decorreria da falta de ligação, de identidade, entre o autor e a realidade liricizada. Sintoma de desenraizamento. Falando do poeta do sertão, Catulo da Paixão Cearense, diz-nos Bandeira:

"Catulo da Paixão Cearense? É sem dúvida um poetão, (...). Mas é tão da cidade quanto nós outros. Não se confunde com o sertão.É um sertão de saudade o seu. Um sertão muito saído de vocábulos regionais."

E demonstrando a dificuldade de aceitação desse seu pensamento, o poeta, na mesma crônica, cita o caso de Ascenso Ferreira:

"Uma meia dúzia dos seus poemas tinham (sic) bem aquêle sabor da obra de arte em que o autor se confunde com o assunto.(...) Fiz o possível para inspirar ao autor de Catimbó (Ascenso Ferreira) o gôsto de ser o poeta de Palmares. (...) Mas logo da primeira vez (que quis apresentá-lo assim) o autor do Catimbó me chamou de parte e me fêz sentir que eu estava fazendo com ele uma pilhéria de mau gôsto. Ascenso fazia questão fechada de ser um poeta culto"

Essa "questão de ser culto" parece ser na opinião de Bandeira o grande entrave à nossa necessidade de autodescoberta. No Prefácio às Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, ele no diz:

"Sempre fui partidário do abrasileiramento do nosso português literário, de sorte que aceitava em princípio a iniciativa de Mário. Mas discordava dêle profundamente na sua sistematização, que me parecia indiscretamente pessoal, resultando numa construção cerebrina, que não era a língua de ninguém. Eu não podia compreender como alguém, cujo principal fito era ´funcionar socialmente dentro de uma nacionalidade´ se deixava levar, por espírito de sistema, a escrever uma língua artificialíssima (...)"

Também Alfredo Bosi tangencia esse tópico na importante palestra Cultura como Tradição. Citando ensinamentos apreendidos com o professor Oswaldo Elias Xidieh, diz-nos o ensaísta que a cultura popular deve estar com o povo. Quanto menor a influência do Estado no folclore, maior será a presença das legítimas tradições. Eis o drama para Bandeira: nossos eruditos tentam se apropriar do que é mais externo da cultura popular, não do que é interno. Buscamos o sensual, e não o íntimo. Seja no retrato, seja no tema, seja na linguagem, não nos identificamos plenamente com a brasilidade que se pretende expor. É como se fôssemos intelectualizar o que não pode, nem deve ser intelectualizado.

Diante, pois, do momento pós-moderno, alienante e alienado, individualista e narcisista, o topos acima descrito ganha extrema relevância. O homem vem deixando, gradualmente, de ser a fonte individual do sentido ou da ação diante do mundo. De fato, a evolução do capitalismo demonstra que a experiência humana é antes garantia de caos que de equilíbrio ou garantia de sentido. A base empírica do conceito positivista de conhecimento, isto é, a confiança na observação e na experimentação, típica do século XIX, vem sendo cada vez mais questionada.

Um exemplo claro disso, ainda segundo o professor Alfredo Bosi, é que hoje o indivíduo projeta a quantidade/ qualidade de cultura de uma pessoa na quantidade/ qualidade de livros, por exemplo, que ela possui, nos simulacros desse saber. O indivíduo parece não se importar muito com a reflexão que se faz sobre a leitura deles.



Se a tendência da sociedade contemporânea é o agora, é a lógica do consumo, é a valorização do simulacro, em vez da experiência concreta, é a decadência dos grandes ideais, dos grandes valores e das instituições, é a criação indivíduos sem história, programados e solitários, então o problema do desenraizamento fica potencializado.

O quadro que se expõe à análise não é dos mais simples: à necessidade de comunicação, de conhecimento da própria terra, de sua própria humanidade contrapõe-se a deterioração do valor das trocas de experiência, em virtude do mundo caótico em que se vive.

Nas considerações sobre a obra de Nicolai Leskov, Walter Benjamin aponta que esse processo de deterioração do conhecimento coletivo, referido anteriormente, é uma das marcas da sociedade formada após as guerras mundiais do século XX. Com elas, tornou-se manifesto um processo que continua até hoje. No final da guerra, observou-se que os combatentes voltavam mudos do campo de batalha não mais ricos, e sim mais pobres em experiência comunicável. E o que se difundiu dez anos depois, na enxurrada de livros sobre a guerra, nada tinha em comum com uma experiência transmitida de boca em boca.



Parece claro, portanto, que uma forma eficiente de combater o estado de anomia, de desenraizamento, de mudez do ser humano, é recuperar-lhe voz e ouvidos, trazendo-o de volta à sua legítima tradição oral. Saber ler, ouvir e ver seus pares é, sobretudo, refletir sobre si mesmo. Um ato menos de altruísmo que de autoconhecimento.

E esse trabalho será tão mais fértil, quanto mais cedo iniciado.

20 de nov de 2010

Quilombos às avessas

Se me permitem o clichê, é preciso mais que o tempo para apagar as manchas que séculos e séculos de escravidão deixaram na nossa gente. O preconceito determinista e o pensamento nobiliárquico/aristocrático ainda têm pesada voz em muitos círculos, abastados ou não, da nossa sociedade.

O resultado disso é que permanece, nos nossos dias, um processo medonho de "embranquecimento" da nossa gente; um preconceito que não só incita, por exemplo, a ridicularização das manifestações musicais e religiosas do povo negro e ameríndio, mas também, quando muito, a absorção superficial da sua influência na nossa cultura. Explico.

O Brasil, para muitas pessoas, não é uma nação, uma raiz; é apenas uma circunstância, um triste acaso do destino. Tudo aqui lhes é exótico. Muitos há que "toleram" o samba e o candomblé, para citar casos comuns, mas se posicionam diante dessas manifestações como turistas que se veem num safári. Vão a uma noite de samba no Salgueiro ou a um terreiro e acham que merecem uma medalha de bravura por isso. São capazes de "achar lindo o toque daquele tambor e aquelas moças todas dançando", mas se colocam numa posição de distanciamento e superioridade, típica de quem detém exclusivamente o saber formal das músicas eruditas de Mozart, das epopeias de Homero, das pinturas de Caravaggio e "curte o som das melhores casas noturnas de Ibiza". São os desterrados em sua própria terra; são os que sonham morar em Paris ou Miami; são os que criam núcleos de resistência em condomínios e shoppings, numa espécie de quilombo às avessas. Estão neste país permanentemente de férias, esperando uma europeização que, para eles, tem que vir, e há de vir.

Quero deixar claro que este texto não busca fazer uma simplista apologia da cultura popular, em detrimento da erudita (ou, em outra visão, da verdadeira cultura nacional, em detrimento de estrangeira). Este texto busca demonstrar que não se pode encarar uma como oficial, outra como marginal; uma como desejável, outra como tolerável (quando muito). É no Brasil preto, índio, branco e imigrante que vivemos e, por isso, não adianta consumirmos apenas o que vem de fora para nos esclarecermos diante de nós mesmos. É preciso conhecer e respeitar esse Brasil de verdade para encontrarmos paz.

Certo é, meus caros, que gostos variam e que afinidades se criam, e por conta disso é perfeitamente possível gostar mais de uma fuga de Bach que de um choro de Pixinguinha, ou mais de uma canção dos Beatles que de um samba de Candeia. O que não se pode é desprezar legítimas manifestações culturais ou pensar que elas devem se circunscrever a determinados grupos.


Vejo com temor algumas pessoas ainda proclamando que não existe preconceito no Brasil, e outras acreditando nisso. Pior: pessoas achando ridículo existir um dia da consciência negra, sob a alegação de que isso sim é que cria o preconceito. Pois bem, numa rápida busca no Twitter pelo termo "Umbanda", encontrei ataques e deboches inúmeros. Encontrei também, por exemplo, o seguinte: "ah não, ah não, ah não, o 'fulano' é da Umbanda... =/ Nada contra, mas é que eu amo ele, quero o bem dele...". Esse "nada contra" do texto dela é perigosíssimo, porque, na verdade, o que se está dizendo é "tolero crenças diferentes das minhas, desde que eu e aqueles com quem me importo não tenhamos que nos relacionar diretamente com elas". Essa pessoa talvez não saiba que é preconceituosa. Mas é. Muito. Extrapolando o exemplo: são pessoas assim que acham normalíssimo e democrático construir muros para isolar as favelas (não pagam iptu mesmo) e cobrar fortunas para entrar em estádios de futebol (ora, não tem lugar pra todo mundo). São pessoas assim que, em breve, vão lutar para que o carnaval do Rio de Janeiro seja feito com abadás (ninguém quer ficar no calor, longe do bloco, né?). Sobre esse tema, sugiro excelente texto de Luiz Antonio Simas: A síndrome de Neuendorf e a direita raivosa.

Tive a sorte de ser criado para entender que as palavras de um preto-velho eram tão importantes quanto as de um professor em sala de aula. E foi um desses guias que uma vez me ensinou que há beleza nas coisas simples, que há beleza até na tristeza, mas não há nenhuma na raiva, no ódio; me ensinou que caráter não se mede em livros, mas que eles também são importantes para nos ajudar a pensar o mundo, as pessoas e, com isso, buscar uma vida mais leve; me ensinou curimbas que marejaram meus olhos, como Dante e Beatrice um dia também o fizeram; me ensinou que nem sempre pedra é pedra e que mesmo a miudinha pode ser imensa. Sabedoria imensa.

De minha parte, portanto, cabe sempre lutar para que as minhas raízes sejam preservadas, difundidas e respeitadas. Tenho, no coração, meu pai Oxóssi de mãos dadas com Fernando Pessoa e garanto: desse conluio só consegui extrair coisas boas. Meu coração é também preto, como em verdade é o de todo brasileiro. Como me disse uma vez mestre Simas: "somos homens de bem, e não temos vergonha do nosso povo".

Neste dia de Zumbi, convite à reflexão, termino este arrazoado com as sábias palavras do grande Solano Trindade, poeta negro, poeta do povo brasileiro, dos grandes da nossa raça: "Quem me ouvir, ouça!"

Apesar de tudo que tenho ouvido e lido sobre poesia, resultado das teses e debates nos congressos de poetas e críticos - não me sinto disposto a mudar de linha, de sair do caminho popular de minha poética.

Sem querer discutir o valor dos herméticos “concretistas”, “neo-concretistas”, “dadaístas”, etc (eruditos donos da cultura ocidental), prefiro levar ao meu povo uma mensagem, em linguagem simples, em vez de uma mensagem cifrada para um grupo de intelectuais.

Tenho pelos homens de cultura uma grande simpatia, sejam modernos ou acadêmicos; tenho aprendido muito com todos eles, através dos seus livros e das suas conversas, porém, a minha poesia continuará com o estilo do nosso populário, buscando no negro o ritmo, no povo em geral, as reivindicações sociais e políticas, e nas mulheres, em particular o Amor.

Agradam-me profundamente os títulos de “poeta negro”, “poeta do povo”, “poeta popular”, às vezes ditos de modo depreciativo - mas que me dão uma consciência exata do meu papel de poeta na defesa das tradições culturais do meu povo, na luta por um mundo melhor. Unir o Universal ao Regional, num poema participante ou amoroso, num verso de protesto ou ternura - mas em palavras bem compreensíveis.

Quem me ouvir, ouça.
Eu canto aos Palmares
sem inveja de Virgílio, de Homero e de Camões
porque o meu canto é o grito de uma raça
em plena luta pela liberdade!

(Solano Trindade. São Paulo, julho de 1961)


16 de nov de 2010

A arte imita a vida

Um dos grandes males a serem vencidos no mundo de hoje é a intolerância.

Abaixo, seguem dois vídeos. O primeiro é do comediante Marcelo Adnet, que satiriza um comportamento elitista e preconceituoso. O segundo é de um jornal transmitido pela RBS/TV Globo de Santa Catarina. Não é comédia.

Engulhos e mais engulhos.



(dica de @IlustreBOB)

30 de out de 2010

Última declaração de voto antes de domingo


Não tenho vergonha nenhuma de ser um cabra que se toma pela emoção com a maior facilidade do mundo. Vou às lágrimas com uma frequência espantosa, pelas razões mais improváveis. E acredito firmemente que, dentre as tantas coisas que unem brasileiros de todos os rincões deste monumental país, uma delas é essa capacidade linda que nós temos de reconhecer a beleza e de nos misturarmos a ela.

Somos, orgulhosamente, um povo de paz, que antes brinca e zomba que ataca e odeia; um povo de alegria, que reconhece nas suas festas, cantos e danças a mais legítima expressão de sua própria identidade; um povo de tolerância, que é singular exatamente porque é plural; um povo de luta, que sabe admirar aquele que está ao seu lado e que nunca quer ver um companheiro sem condições de aproveitar consigo os prazeres que a vida dá.

Isso, deixemos claro, não significa assumir um espírito condescente ou adotar uma hipócrita postura de superioridade caridosa. É que, diferentes de outros povos, de outras terras, não sabemos ser sós. 

Precisamos estar em contato com o outro e precisamos que o outro possa estar em contato conosco e, por isso, constantemente enchemos estádios e ruas e bares e terreiros e igrejas e redes sociais. É, talvez, a maior contribuição da nossa gente pra roda-viva do nosso tempo: precisamos um do outro pra festa ser completa e pros céus nos darem a bênção.

Lula, nestes últimos oito anos, e Dilma, nos próximos que virão, tornaram e vão continuar tornando essa nossa festa mais completa. 

Apesar das dezenas de postagens com números, análises, resenhas e dados aqui deste blogue, meu voto amanhã não tem outra razão senão esta: preservar o meu direito de reconhecer, no Brasil, o Brasil de verdade.

17 de out de 2010

Dois projetos radicalmente diferentes

Texto do professor Durval Muniz de Albuquerque Júnior, presidente da Associação Nacional de História, sobre as eleições presidenciais. Publicado em Carta Maior.

Estamos num momento decisivo da vida brasileira, onde qualquer omissão pode ser imperdoável. Eu, que faço parte da parcela ainda privilegiada de brasileiros que conseguiu concluir um curso superior e fazer uma formação pós-graduada, não ficaria com a consciência tranqüila se não viesse a público, neste momento, com o uso daquilo que sei fazer: refletir, pensar, para tentar contribuir no sentido de dar um mínimo de racionalidade a um processo eleitoral que, muito pela influência de determinados setores da mídia, mas infelizmente também com a participação decisiva de candidaturas como a de José Serra e Marina Silva, descamba para se tornar uma discussão obscurantista, rasteira, mistificadora e preconceituosa, sobre temas e aspectos nomeados genericamente de “valores”, que interessam de perto aos setores mais conservadores e retrógrados da sociedade brasileira, fazendo ressuscitar dos porões das almas, das mentes e do interior da sociedade forças e subjetividades microfacistas.

Dirijo este texto àqueles que fazem parte como eu desta parcela letrada da sociedade, notadamente, daqueles alojados no interior da Universidade, e que, para minha surpresa e decepção, vêm manifestando a intenção de votar em José Serra no segundo turno das eleições. Como estou escrevendo para pessoas que julgo estar sob o império da racionalidade, nem me vou ocupar de rebater os motivos e argumentos apresentados para não se votar em Dilma Rousseff, em uma das campanhas mais sórdidas, mais caluniosas, injuriosas e preconceituosas já levadas a efeito no país, com a participação decisiva do candidato Serra e da mídia golpista que o apóia, a mídia que medrou e engordou durante a ditadura militar, campanha só comparável àquela de 1989, que levou ao poder o queridinho das elites brancas da época: o caçador de Marajás, Fernando Collor, (e todos sabem no que resultou aquela aventura amparada em retórica e práticas tão farisaicas, despolitizadoras e moralistas como as que embasam a atual candidatura tucana).

Embora pareça que para estes meus colegas, de estômagos fortes, não causa repugnância e náusea uma candidatura que explora e incentiva o tradicional desapreço e desprezo das elites brasileiras pelos nossos vizinhos da América Latina, pelos africanos e pelos asiáticos (o que fica demonstrado pelos ataques do candidato ao Mercosul, à Unasul, a chefes de Estados de países vizinhos democraticamente eleitos, alguns deles pertencentes a grupos historicamente excluídos naqueles países.

Na crítica à política externa do governo Lula mal se disfarçam a xenofobia e o racismo de nossas elites que sempre se julgaram brancas e sempre tiveram os olhos voltados para os Estados Unidos e para a Europa, onde na verdade sempre sonharam em viver; a política externa de FHC, onde o presidente falava inglês e o chanceler como um lacaio tirava os sapatos para passar nas alfândegas dos países desenvolvidos mostra bem isso); uma candidatura que explora o preconceito contra as mulheres, candidatura sexista, machista e misógina, que claramente tenta desqualificar o lugar da mulher na política e que utiliza a velha tática de pôr em suspeita a sexualidade de toda mulher que ousa desafiar os lugares reservados aos homens (com a conivência de inúmeras mulheres ditas independentes e feministas entronizadas como comentaristas na mídia, como Maitê Proença que chegou a convocar os “machos selvagens” para nos livrarem de Dilma; ressalte-se ainda o silêncio cúmplice de grandes lideranças intelectuais e políticas feministas ligadas ao PSDB, que deixo de nomear por respeito às suas trajetórias, que não deveriam necessariamente votar em Dilma, mas se posicionarem veementemente contra o tipo de campanha que faz o seu partido.

Este silêncio poderá custar caro à muitas conquistas feitas pelas mulheres. Me pergunto como pode ser que intelectuais deste quilate possam estar silenciosas diante do uso aético e mistificador da questão do aborto pelo candidato tucano, será que uma vitória eleitoral compensa a perda de uma reputação construída durante anos na luta das mulheres?

Ainda está em tempo de romperem o silêncio!); uma candidatura que explora e acirra o preconceito contra os homossexuais ao espalhar em emails apócrifos e criminosos na internet a suspeita de que Dilma seria lésbica (e qual o problema se fosse, sabemos com que órgãos de seu corpo ela exercerá a presidência); uma candidatura que açula o preconceito contra o pobre e o nordestino, que como sempre são tomados pelas nossas elites de classe média como aqueles ignorantes, que não sabem votar, que votam com a barriga e não com o cérebro, mesmo que estejam votando por defenderem a continuidade do governo que de longe foi o que mais beneficiou estas duas populações (porque votar em defesa do Bolsa Família, do Minha Casa Minha Vida, é menos racional que votar em defesa dos lucros exorbitantes conseguidos pelos beneficiários do processo de privatização, inclusive os grandes grupos de mídia e do banqueiro que aposta sempre no Meu Banco, Minha Vida?); uma candidatura que faz das mentiras mais descaradas e das promessas mais fajutas a sua apresentação (toma para si feitos dos outros, copia programas das outras candidaturas, promete fazer o que sempre fez diferente quando esteve no poder).

Claro que não vou perder meu tempo discutindo com vocês, que até agora não vomitaram e ainda continuam convictos do voto em Serra, argumentos de enorme racionalidade para não se votar em Dilma como: ela é um poste, ela matará criancinhas (repaginação sofisticada por Mônica Serra, como costuma ser toda repaginação de quem veste Daslu, a honesta Daslu, de conhecido enunciado anticomunista), ela roubou um banco, ela é assassina, ela vai fechar as igrejas, ela acabará com a liberdade de imprensa e outros argumentos ainda mais sofisticados como: “eu não fui com a cara dela”.

Por respeito a vocês todos que acho não seriam capazes de acreditar nestas baboseiras, passo a tratar de uma única justificativa que me pareceu racional, apresentada para o voto em Serra: o sucesso do governo Lula, que todos admitem, até mesmo o candidato Serra que subiu na sua garupa em plena propaganda eleitoral gratuita, teria se dado por este continuar o modelo de gestão perfeito e vitorioso do príncipe dos sociólogos Fernando Henrique Cardoso (há longo email na internet defendendo este ponto de vista racional e respeitável), embora este tenha sido escondido sistematicamente das campanhas do PSDB desde que deixou a presidência seguido de um sentimento de alívio nacional e já vai tarde na maioria de corações e mentes, até nos de muitos dos que hoje esquecidos ou arrependidos tentam salvar o seu legado e resolvem votar em seu candidato.

Como sou historiador, e este profissional tem como ofício ir ao passado para justamente olhar o presente de outra perspectiva, vou lançar mão de alguns traços da história do pensamento econômico no Brasil para tentar convencê-los de que no dia 31 de outubro estarão em confronto dois projetos radicalmente diferentes de país, duas maneiras distintas de interpretar e entender a sociedade brasileira, sua história, sua dinâmica econômica e social, formas radicalmente distintas de pensar a inserção do Brasil no capitalismo globalizado, nas relações internacionais, formas distintas de pensar a dinâmica do desenvolvimento e o papel que o Estado e as distintas classes e grupos sociais desempenharão neste processo.

E quando digo ser radical é justamente porque, como sabemos, radical é algo que se dá desde as raízes, desde suas matrizes teóricas e políticas. Pretendo mostrar que Serra e Dilma representam projetos bastante distintos para o país, porque PSDB e PT representam formulações teóricas distintas da realidade brasileira. Como estamos diante de dois candidatos que não despertam muitas paixões, talvez possamos ter discussões mais racionais, desde que se esteja disposto a se explicitar o projeto que cada um representa (além de representar sua enorme ambição pessoal, seu projeto de ser Presidente da República, de fazer parte da galeria de nossos Presidentes, sonho que ele já realizou, pelo menos na propaganda eleitoral e espero que só lá; Serra representa um projeto de governo que não pode explicitar, que não pode revelar sob pena de não ser eleito, por isso ele protocolou como programa de governo no TSE um discurso, mesmo assim tendo a candidatura deferida: por lá também os amores serristas parecem ter se intensificado, até com trocas de telefonemas amáveis).

Para entendermos o jeito PSDB de governar temos que entender as matrizes teóricas que sustentam suas ações. É inegável que o intelectual orgânico, para usar um conceito caro a Gramsci, deste partido é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, intelectual respeitado mundialmente.

Emir Sader já perguntou perplexo uma vez: o que pensa o Serra? Ninguém sabe, ninguém viu. O hoje elevado a condição de elite das elites, o guia das “massas cheirosas”, segundo a Catanhede, que se saiba nunca teria concluído os cursos de graduação que diz ter e sua Tese de Doutorado, da qual voltarei a falar, anda desaparecida da única biblioteca em que está depositada (por que será que o vaidoso Serra nunca traduziu e trouxe a lume sua obra máxima?).

Ele passou oito anos no governo FHC, exercendo diferentes cargos, sempre aparecendo na mídia como estando à esquerda no partido, como crítico de Malan, como alguém que criticara o Plano Real, mas jamais escreveu algo sobre isto e no governo permaneceu.

Como gestor de mandatos nunca concluídos, não foi capaz de imaginar uma política pública, um programa de governo que possa se dizer original e criativo, se notabilizando mais por desmontar e destruir o que vinha sendo feito antes, até mesmo pelo seu companheiro de partido Geraldo Alckmin (pensem nisso amigos queridos, se duvidarem de mim, pesquisem sobre o desmonte dos programas sociais e educacionais deixados pela Marta Suplicy na Prefeitura de São Paulo). Não é preciso dizer dos inúmeros prêmios internacionais recebidos por diferentes gestões do Partido dos Trabalhadores em municípios, Estados e agora nos dois governos Lula por imaginar e criar inovadoras políticas públicas (se duvidarem, pesquisem: só o Presidente Lula já ganhou até agora mais de duzentos prêmios internacionais, há um site não nacional que se dá o trabalho de arrolá-los todos).

Mas como dizia é no pensamento de FHC que devemos buscar as raízes das propostas pessedebistas para o país. É na Teoria da Dependência, da qual Fernando Henrique foi um de seus formuladores, notadamente na corrente chamada de weberiana, que rivalizava com a chamada corrente marxista encabeçada por Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini, que devemos buscar o entendimento de como o PSDB vê o país e seu povo, inclusive sua classe empresarial, já que, como sabemos, Cardoso se dedicou a fazer uma sociologia do empresariado brasileiro, de seu comportamento e pensamento.

A Teoria da Dependência surge no início dos anos sessenta, diante da crise crescente apresentado pelo modelo nacional-desenvolvimentista de matriz cepalina que esteve na base da política econômica de governos tão díspares e que a realizaram com ênfases distintas como os governos Vargas, Juscelino Kubsticheck e João Goulart.

Quando uma vez na Presidência da República, Fernando Henrique se propôs a enterrar a era Vargas, ele estava realizando o projeto da Teoria da Dependência que criticava algumas formulações básicas do pensamento cepalino e neoclássico, que na versão henriquiana se afastava também das leituras marxistas tanto vindas do pensamento da CEPAL, quanto no interior da própria Teoria da Dependência, propondo assim o desmonte do Estado nacional-desenvolvimentista e populista, fantasmas que são brandidos hoje pelos economistas e “experts” de plantão convocados pela mídia, que estariam sendo reabilitados pelo governo Lula. Em entrevista com Dilma, Miriam Leitão chegou a comparar o que seria o nacional-desenvolvimentismo de Lula com a política econômica da ditadura militar. Como disse sutilmente Dilma: a Leitão sempre ouve o galo cantar mas não sabe aonde.

É inegável que as formulações econômicas, mas também sociais e políticas do governo Lula têm a sua matriz no pensamento nacional-desenvolvimentista cepalino, mais precisamente no pensamento do maior economista brasileiro, o paraibano Celso Furtado, por quem Lula sempre teve uma admiração quase devocional. Como sabemos Celso Furtado se manteve ativo, produzindo e participando diretamente da vida política brasileira até pouco tempo antes de sua morte.

Seu pensamento passou por reformulações e ajustes, mas manteve uma espinha dorsal que, como tentaremos deixar claro, é a própria espinha dorsal do projeto que hoje a candidatura Dilma assume e que queremos ver continuar com ela. É preciso ainda chamar atenção para dois aspectos relevantes: o atual Ministro da Fazenda, Guido Mantega, que foi mesmo dentro do PT identificado como um nacional-desenvolvimentista, dedicou seu trabalho de doutorado a estudar o pensamento de Celso Furtado e, é preciso lembrar ainda, que Dilma Rousseff começou a sua militância administrativa no Rio Grande do Sul, ligada a um governo do Partido Democrático Trabalhista, encabeçado por Leonel Brizola, muito próximo das formulações nacional-desenvolvimentistas.

A grita e o arreganho de dentes, sem pejos, da mídia neoliberal no Brasil se deve ao fato desta identificar em Dilma não uma mera continuidade, mas um aprofundamento da visão nacional-desenvolvimentista em seu governo em relação ao governo Lula. A acirrada querela em torno dos destinos da Petrobrás, empresa símbolo das conquistas que o nacional-desenvolvimentismo de inspiração cepalina trouxe para o Brasil, assim como em torno dos destinos dos financiamentos do BNDES, que não podemos esquecer teve como seu formulador e primeiro Presidente Celso Furtado, torna claro que o que está em jogo nestas eleições não é a religiosidade ou não da Dilma, sua sexualidade, sua experiência administrativa ou seus “valores”, são de “outros valores de que se trata” (como a Marina e seus seguidores verdes, pelo menos os sinceros, foram cair numa armadilha dessas, como podem manchar uma trajetória de vida e política de anos se colocando a serviço de forças e interesses que parecem desconhecer, tudo por causa de quinze minutos de fama na Rede Globo, que a teria triturado com os mesmos argumentos vis e baixos com que faz com Dilma se ela efetivamente tivesse viabilidade eleitoral).

Pecado mortal de Furtado e de Lula, ambos olharam para o Nordeste, ambos são filhos deste rincão enjeitado do país, onde medra uma das piores elites políticas desta terra, ambos não abriram os olhos no planalto paulista, onde luminares como Otavinho Frias e a família Mesquita distribuem a agenda para o país, em consonância com um partido que nunca lançou uma candidatura que não seja paulista, deixando claro a falta de visão de Brasil que os assaltam, como assaltava à Teoria da Dependência. Formulador da SUDENE e seu primeiro superintendente, Furtado sempre apostou no Estado como indutor de uma política de industrialização capaz produzir o desenvolvimento apesar da dependência externa.

Sabemos que desde que FHC aderiu às teses neoliberais, pois estas já estavam em germe em seu pensamento, como deixaremos claro a seguir, a crítica a esta centralidade do Estado, de seu papel como indutor de políticas cambiais, fiscais, de investimento, de distribuição de renda, de combate às desigualdades regionais e sociais, que alavancassem um desenvolvimento endógeno do capitalismo brasileiro, será a pedra de toque do discurso econômico do PSDB, por isso mesmo se aliando a um partido de extrema direita, o antigo PFL, agora DEM, com vagas formulações liberais, um baluarte na luta pelos interesses dos grandes grupos privados nacionais e internacionais em detrimento dos interesses nacionais.

Desmontar o Estado, desmontar as empresas duramente criadas e conquistadas à duras penas com a acumulação de capital realizada pelas políticas nacional-desenvolvimentistas passou a ser a obsessão dos governos do PSDB, tendo em Serra um dos maiores entusiastas, a abrir seu sorriso cheio de gengiva sempre que batia um martelo e entregava o produto de anos de suor dos trabalhadores brasileiros para os capitais nacionais e internacionais, muitos de duvidosas origens, outros sendo agraciados com ajudas vultosas do BNDES para comprarem com dinheiro público e privatizarem o que era público.

Tanto a Teoria da Dependência, quanto a Teoria do Desenvolvimento, elaborada pelos cepalinos, revista e aperfeiçoada por Furtado, concordavam em superar a visão apenas sistêmica e baseada no equilíbrio de fatores da economia neoclássica. Ambos por vias distintas, vão aliar as reflexões econômicas com reflexões sobre as estruturas e relações sociais no país e o papel da política e do Estado na gestão da economia. Podemos dizer que ambas refletem o impacto que representou o pensamento keinesiano para o campo econômico, e sua capacidade de formular as políticas públicas que retiraram os EUA e o restante do mundo da crise sistêmica de 1929.

Só que ambas divergem num ponto fulcral, notadamente na versão weberiana encarnada pela obra de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto: ambas concordam que o subdesenvolvimento é produto do próprio desenvolvimento do capitalismo, que se dá desigualmente gerando um centro e uma periferia do sistema, que tende a reproduzir subordinadamente a dinâmica que é dada pelas economias centrais e seus modelos. Ambas concordam na possibilidade de haver desenvolvimento mesmo na periferia, de haver desenvolvimento apesar da dependência e da subordinação, mas divergem frontalmente de como isto seria possível.

Nesta divergência estão as raízes das divergências entre as políticas não só econômicas, mas sociais, de relações internacionais, de alianças políticas, de formulação de políticas públicas que estão representadas nas candidaturas Serra e Dilma. Na Tese de Doutorado que defendeu nos EUA, Serra teria criticado a política econômica do governo Allende do qual participara, com Allende já morto e deposto pelo golpe de Estado apoiado pelo governo americano (Serra parece adorar criticar os governos de que participa, pois quem conhece a peça sabe de sua megalomania e de sua vaidade infinita, além de que, aqui, amigos, merece uma parada para reflexão: como é que alguém que serviu ao governo Allende vai parar nos EUA e é recebido pelo governo que patrocinou o golpe no Chile, terá sido para Serra escrever o que escreveu?).

A crítica se centra não apenas no combate ao pensamento cepalino, esposado ainda por setores presentes no governo chileno, como no combate a Teoria da Dependência em sua versão marxista, que não acreditava ser possível haver desenvolvimento nos países periféricos sem a derrubada revolucionária do capitalismo. Talvez a mistura explosiva do reformismo cepalino com o revolucionarismo daqueles que pensavam diferente de FHC, que sempre descartou a necessidade de uma revolução socialista para que o desenvolvimento se fizesse na periferia do sistema, tenha levado ao desastre da política econômica de Allende atacada na Tese do aspirante a Presidente da República pelo PSDB. Talvez assim possamos entender porque Lula e sua política econômica já foi chamada por grandes luminares da imprensa e da vida parlamentar de bolchevista e até de albanesa (seriam ilários, se não fossem tão primários).

A diferença matricial entre as duas posturas gira em torno da possibilidade de um desenvolvimento capitalista, porque é disso que se trata, não de revolução ou bolchevismo, feito na periferia, colocando como centro do processo a aliança estratégica entre empresariado nacional, Estado e classes trabalhadoras por um lado e os setores externos por outro, aquilo que FHC andou chamando de mexicanização, venezualização, retorno do peronismo (como usa bem e precisamente as categorias nosso sociólogo).

Para as formulações cepalinas lá dos anos cinqüenta, com seu nacionalismo típico da época, as forças externas eram encaradas como obstáculo ao desenvolvimento do país, assim como as forças internas a eles aliadas como os setores agrário-exportadores. Mesmo reformulando mais tarde estas ideias, Furtado mantém a opinião que o processo de desenvolvimento, em países como o Brasil, deve ter como motor as forças econômicas, sociais e políticas nacionais, que saibam inserir o país na economia global, mas tendo seus interesses estratégicos sempre à frente e bem definidos.

Para ele, o Brasil tinha um enorme potencial de crescimento endogenamente gerado por seus amplos recursos naturais, por já ter internalizado e desenvolvido o processo de industrialização, devendo ampliar bases técnicas, tecnológicas e educacionais próprias, o país já possuía a enorme potencialidade de um grande mercado consumidor de massas, bastando para isto que fossem prioritárias em qualquer política econômica a ênfase em mecanismos distributivos de renda e de redução das desigualdades regionais.

O governo Lula e o sucesso reconhecido mundialmente, até pelos órgãos de imprensa econômica mais conservadores, de sua política econômica, aliada a políticas sociais de distribuição de renda, como o Bolsa Família e a política de valorização do salário mínimo, provou que as teses de Furtado estavam certas. Foi por ter criado um mercado de consumo de massas no Brasil, com a ascensão de parcela significativa da população para as classes médias e a retirada de outras tantas da linha da pobreza absoluta que o Brasil pode enfrentar e vencer rapidamente, com suas próprias forças, a grave crise que vivem os países centrais do capitalismo.

A Teoria da Dependência de FHC nunca acreditou na possibilidade de se fazer o desenvolvimento sem que a direção do processo se desse nos próprios países centrais do sistema. Avaliando como sociólogo a mentalidade empresarial brasileira, FHC sempre foi pessimista em relação a esperar das forças nacionais o nosso necessário desenvolvimento.

Daí por ser um crítico de primeira hora das ideias cepalinas que vêem o elemento externo como obstáculo ao desenvolvimento nacional, que dá imediatamente enorme audiência ao seu discurso no mundo e, por incrível que pareça, entre nossa elite empresarial que parece ter aceitado com gosto e alegria o lugar menor e subalterno que o pensamento da dependência lhes reservava, talvez porque sempre no fundo se sintam não pertencentes ao país, mas estrangeiros em sua própria terra.

Estas formulações da Teoria da Dependência mal disfarçam que requentam teses já bastante gastas entre nossas elites letradas da incapacidade de nosso povo para a civilização, para o progresso, para o trabalho livre, para o desenvolvimento. Nas formulações pessedebistas há clara desconfiança em relação ao nosso povo.

Esta é uma diferença crucial entre Dilma e Serra; Dilma acredita que nosso povo, se estimulado, se receber crédito, se receber salário, se lhe forem dadas condições educacionais e de renda, tem condições de construir um país soberano, capaz de traçar suas próprias estratégias, sem que para isso tenha que se fechar ao mundo, mas tendo uma visão alargada do próprio mundo, não vendo nele apenas o Norte, mas enfatizando a diversificação dos mercados e das relações políticas, diplomáticas e culturais, enfatizando as relações Sul-Sul, tornando o Brasil um país capaz de ajudar a impulsionar o desenvolvimento dos seus vizinhos e países assemelhados ou em níveis piores de pobreza e desenvolvimento humano. Mas se muitos luminares do PSDB não querem que se seja solidário nem no interior da nação, como mostram as políticas predatórias, a guerra fiscal movida covardemente pelo Estado mais rico da nação contra os menores Estados, e a implicância histórica serrista com a Zona Franca de Manaus.

Foi a Teoria da Dependência que inspirou já o primeiro programa econômico apresentado por um candidato tucano a concorrer à Presidência da República. O “choque de capitalismo”, prometido por Mário Covas em 1989, foi finalmente realizado por Fernando Collor e continuado nas duas gestões de FHC e se mostrou efetivamente chocante para a sociedade brasileira. A ideia de que seria expondo os setores da economia brasileira à concorrência externa, abrindo a economia para os fluxos de capital internacionais, privatizando os setores estratégicos dominados pelo Estado e os entregando a moderna gestão empresarial internacional, que se faria o país desenvolver-se, se modernizar, palavra mágica para a Teoria da Dependência henriquiana, se torna o centro das políticas econômicas do PSDB. A concorrência externa também afetaria as relações de trabalho e emprego, as modernizaria, levando a ruína à estrutura burocrático-estatal montada pelo nacional-desenvolvimentismo.

Acompanhada de políticas austeras de gastos públicos, com a redução do Estado, com a modernização e desburocratização da máquina pública, aliada ao combate à inflação, teríamos garantido o desenvolvimento sustentável, aquele que, como vimos, só dava para sustentar os privilegiados de sempre e aos novos que chegaram como um enxame de vespas no lastro do processo de privatização. Ao final, o brilhante resultado desta política, que dizem que Lula apenas continuou, pinçando aspectos menores da política econômica anterior (política de metas de inflação, de superávit primário, de contingenciamento de recursos do orçamento, política de câmbio flutuante, que se esquecem os serristas que só foi adotada depois do desastre provocado pela política de câmbio fixo e Real supervalorizado do pucboy Gustavo Franco, política que empobreceu grande parte do país, mas gerou superlucros nos setores exportadores, principalmente agroexportadores que são eternas viúvas de FHC, como mostra mais uma vez as vitórias serristas em Estados como MT, MS, PR, SC e SP, que se dane a maioria, se a minoria de sempre lucra e muito, está ótimo) que foram mantidos mas subordinados a uma lógica macroeconômica diversa: o país quebrou três vezes, a cada crise econômica em um país lá fora, pois sua economia foi atrelada e completamente exposta às vagas do capital financeiro internacional, fazendo o país acumular uma criminosa dívida em moeda estrangeira, dívida que o governo Lula tratou de reconvertê-la em moeda nacional, garantindo maior soberania sobre as contas internacionais; a quebradeira de setores inteiros da indústria nacional, com o desemprego e a falta de esperança sendo tônica de todo o período, (se reconhecemos que outros setores se dinamizaram como o de telefonia com a privatização, o de energia resultou no apagão histórico de FHC, pois o Estado deixou de investir), o arrocho salarial entre o funcionalismo público, a terceirização e precarização dos serviços se ampliaram, piorando a vida dos mais necessitados do Estado; para os das classes médias que não precisam dos serviços públicos ficou o deslumbramento das novas marcas estrangeiras nas vitrines e dos novos modelos de carros importados e celulares, agora todos se sentiam globais, viviam em Miami, a festa para poucos era geral.

As estradas viraram só buracos, com a exceção daquelas privatizadas, como as do Estado de São Paulo, entregues a grupos privados em troca do melhor preço no ato da concessão e não do menor pedágio, tal como feito no governo Lula, estratégia pensada por Dilma – basta comparar os preços dos pedágios do PSDB e do PT e se notará o jeito diferente de governar, pois se governa para outros grupos sociais, não é para as classes médias apenas, mas principalmente para incluir os mais pobres.

As estradas de ferro sucateadas, a indústria naval e a indústria bélica desmontada, a aeroespacial privatizada. Os brasileiros mais pobres começam a se submeter a migrarem até para o Japão em busca dos empregos que a Petrobrás gerava lá ou na Austrália. Amparada em ampla campanha midiática, que buscava desmoralizar a grande empresa estatal brasileira, o esvaziamento econômico e técnico da Petrobrás preparando para privatizá-la, levou ao trágico acidente do afundamento da Plataforma P-36 (o mesmo governo que não fora capaz de fazer a avançada tecnologia de uma caravela navegar, coisa que os portugueses, tidos em tão baixa conta, já o havia feito desde o século XIV, afundavam uma plataforma e com ela pretendiam afundar a Petrobrás) tal como ocorre agora com os Correios, que sofre inegável campanha de desmoralização, na esperança de que seja a primeira jóia da coroa que Serra, uma vez eleito, leiloará para que assim como na privatização da telefonia se candidatem a OESP, a Globopar, a Folha da Manhã, o Grupo Abril, que tantos esforços fazem em eleger seu candidato do coração e do bolso.

Para concluir, pois já me estendi além da conta, para que vocês meditem bem sobre o passo que darão ao entregar o país a um homem como José Serra, que a mídia que ele financia com dinheiro da educação, enquanto trata os professores de São Paulo a cacetetes e bombas de gás lacrimogêneo, diz ser o mais competente e preparado, convido vocês a ir ao Youtube e assistir um vídeo de uma entrevista dada por Serra ano passado, quando do auge da crise econômica, ao jornalista serrista e de conhecida história de adesão à extrema direita Boris Casoy, onde Serra aparece indisfarçadamente eufórico, com a possibilidade que a crise viesse acabar com a popularidade do governo Lula e facilitar as coisas para ele este ano.

 

Para que sua vontade pessoal de ser Presidente se efetive, como bem diz Ciro Gomes, Serra pisa até no pescoço da mãe, e é capaz de torcer contra o país, que a população venha sofrer este não é um problema para ele, postura que parece ser de muitos de vocês companheiros que resolveram votar em Serra, desde que suas razões particulares justifiquem um voto que pode significar o retorno à miséria de amplos setores da sociedade brasileira, mas vocês têm este direito, votem e depois durmam o sono dos justos.

Mas esta entrevista explicita o desastre que teria sido se ao invés de Lula, de Mantega, das formulações furtadianas que eles representam, fosse o ninho tucano e sua teoria da dependência (dependência ao Norte, diria o pândego e arguto Paulo Henrique Amorim) que estivessem no poder. Serra, do alto de sua sabida arrogância e prepotência, tratou logo de desqualificar todas as medidas tomadas pelo governo Lula, com o riso cúmplice e hiênico do Casoy que arrematou que Lula estava fazendo diferente do que todo mundo estava fazendo nos países centrais do capitalismo (que petulância, como pode discordar do centro), ridicularizaram a fala do Presidente de que aqui a crise seria uma marolinha, e seria sim pois os fundamentos da economia brasileira eram outros bem diferentes da era FHC: tínhamos acumulado grande quantidade de reservas internacionais, ao contrário de perdê-las como com FHC, havíamos nos livrado do monitoramento e das restrições impostas pelos acordos com os organismos internacionais, havíamos pago a dívida com o FMI e Clube de Paris e Lula e Mantega não precisavam mais chamar a Brasília a senhora da mala do FMI a cada vez que se precisava tomar uma decisão em matéria de política econômica, industrial, cambial, financeira, salarial, etc, ou seja, Teoria da Dependência gera o que a nomeia, não duvidem.

Serra pomposo dizia: como reduzir impostos agora que todos os Estados querem preservar seu poder de investimento, como aumentar salários agora que eles tenderão a cair, como ampliar investimento no momento em que a arrecadação vai declinar. O sábio, o preparado Serra fez em São Paulo, o que faria no Brasil, aumentou impostos em plena crise, arrochou como sempre os salários (pergunte a um delegado de polícia de São Paulo o que ele acha do salário dele e porque o PCC só cresce), suspendeu investimentos, privatizou a Nossa Caixa, única empresa estatal que restava, rapidamente adquirida pelo governo federal através do Banco do Brasil, que saiu assim fortalecido da crise.

Quando viu o sucesso da política de Lula que, acima de tudo, conta com aquilo que Serra não tem e nunca vai ter: carisma e popularidade, indo a televisão convocar todos a continuar consumindo, explicando como só ele sabe fazer para a população porque era preciso manter o ciclo virtuoso da economia e não se deixar contaminar pelas nuvens negras profetizadas pelos urubólogos e urubólogas serristas de plantão na mídia e pelos próprios partidos da oposição, correu para copiar algumas medidas tomadas pela equipe econômica que ele havia chamada de inepta, que não tinha a brilhante trajetória de gestor econômico que ele tem.

Façam isso, por favor, assistam a este vídeo, e se ainda assim quiserem entregar o Brasil a Serra, que o façam, mas minha consciência estará tranqüila, tentei fazer um esforço em alertá-los. Eu e o Brasil esperam que mudem de opinião e ele não vença, se mesmo assim ele vencer vou torcer para que eu não venha a me divertir tanto quando encontrá-los, quanto me diverti meses após a posse de Collor, vendo os meus colegas coloridos que haviam votado no caçador de marajás e não no sapo barbudo com medo de perderem suas poupanças, reduzidos a CR$ 50,00 em suas contas. Assim como Collor, Serra sempre faz o que diz que não vai fazer, tenham cuidado.

Abraço carinhoso a todos e um feliz e refletido voto para vocês e para o Brasil.

(colhido aqui)